"Quem me dera ser leal, discreto e silencioso como minha sombra" (Dom Helder Câmara).

quarta-feira, 5 de julho de 2017

Quem ouviu a nossa pregação?

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Se a teologia cristã deseja ser uma voz ouvida em tempos atuais é imprescindível que ela avance nas diversas ressignificações de suas verdades, discursos e símbolos.
Teologia se vê, muitas vezes, colocada de lado por parte de setores da sociedade.
Teologia se vê, muitas vezes, colocada de lado por parte de setores da sociedade. ((Divulgação Pixabay))
Por Fabrício Veliq*

Ao longo de sua história, a teologia sempre teve uma voz ativa no meio da sociedade. Seja no tempo dos Profetas no Antigo Testamento, que por meio de suas vozes exigiam a justiça e o governo justo por parte dos governantes, seja por meio dos primeiros cristãos, que mesmo sendo pouco numerosos, insistiam em lutar contra a dominação imperial que oprimia e gerava morte, pregando, no lugar o Reino de Deus e a Nova Criação de todas as coisas.

Com a conversão de Constantino, porém, o cenário muda completamente e o Cristianismo passa a ser, então, a maior voz no mundo Ocidental o que, como é sabido, juntamente com alguns avanços, trouxe também inúmeras atrocidades.

Essa situação muda com o advento da Modernidade. A partir daí é a razão que passa a ser a nova voz no mundo do Ocidente. Com isso, principalmente nos países que serviram de colônias de exploração, como no caso brasileiro, a esfera teológica foi deixada de lado, como que se preocupando somente com as questões sacramentais e da vida religiosa.

Assim, para a maioria da população, há um mundo religioso, que é conhecido e estudado pelos padres, pastores e teólogos e um mundo secular em que se deve prestar atenção na economia, ciência, administração, saúde, educação etc.

Esses dois mundos, na cabeça de muitos, não chega a ser nem intercambiável, sendo até mesmo estranho para alguns pensar que um padre entenda de questões econômicas ou que um teólogo esteja envolvido nas questões concernentes à saúde da população. Diante disso, a voz da teologia se vê, muitas vezes, colocada de lado por parte dos setores da sociedade, seja por causa desse tipo de visão que perdura há muito tempo, seja porque a própria teologia, por meio de seus teólogos e teólogas, não consegue propor um discurso e um ensinamento que faça sentido para o povo do qual ela faz parte.

Claramente, a primeira constatação só pode ser mudada a partir da mudança da segunda. Para que essa mudança na forma de ver a teologia ocorra, faz-se necessário que aqueles que se dedicam a estudá-la e fazê-la se preocupe não somente na forma como falar, mas também na maneira como as realidades da fé é compreendida pela comunidade.

De nada adianta toda a carga simbólica que o Cristianismo insiste em passar para os cristãos em seus diversos ritos se aqueles para os quais ela é direcionada não os compreende, mas os vê simplesmente como algo necessário para se obter alguma espécie de salvação da condenação eterna.

Se a teologia cristã deseja ser uma voz ouvida em tempos atuais nos assuntos do cotidiano da sociedade e ser uma voz que tem algo a dizer e que, ao mesmo tempo, seja demandada pelos diversos setores da população em que está inserida, é imprescindível que ela avance nas diversas ressignificações de suas verdades, discursos e símbolos.

Essas ressignificações, longe de ser uma negociação dos princípios, fundamentos, valores e verdades da fé cristã, têm como intuito dizer o que se crê de uma maneira nova, numa linguagem atual e que faça sentido para os povos de hoje.

Sem dúvida, essa tarefa implica uma teologia que esteja em contato com as realidades sociais e junto daqueles que sofrem. Em outras palavras, somente uma teologia empática com a esfera pública é capaz de brotar e florescer nesse meio.

A pergunta que fica diante disso é: estariam os teólogos de nosso país dispostos a tal empreendimento?

*Fabrício Veliq é mestre e doutorando em teologia pela Faculdade Jesuíta de Belo Horizonte (FAJE), doutorando em teologia na Katholieke Universiteit Leuven - Bélgica, formado em matemática e graduando em filosofia pela UFMG. Membro do grupo de pesquisa Fundamental and Political Theology em KU Leuven e do Grupo de Pesquisa Estudos de Cristologia da FAJE. Ministra cursos de teologia no cursos de Teologia para Leigos do Colégio Santo Antônio, ligado à ordem Franciscana, no Centro de Formação e Cultura em Divinópolis e é também professor voluntário no CITEP na Faculdade Jesuíta de Belo Horizonte. É protestante e ama falar sobre teologia em suas diversas conversas por aí, tanto presenciais, como online. Seu blog, caso queiram conhecer mais de seus textos, é www.fveliq.blogspot.com. Seu e-mail, caso queiram entrar em contato, é fveliq@gmail.com.
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Pe. Geovane Saraiva

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