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terça-feira, 9 de maio de 2017

A preservação da biodiversidade, a terceira via sustentável ecológica

domtotal.com
Durante 11 mil anos a espécie humana viveu na era geológica chamada holoceno.
Durante 11 mil anos a espécie humana viveu na era geológica chamada holoceno. (Divulgação)

Profundo conhecedor da Amazônia, Carlos Nobre tomou a atenção dos mais de 40 participantes da conferência Amazônia: interações entre as florestas e a atmosfera e sua importância para o clima, trazendo dados detalhados do complexo funcionamento do bioma amazônico, oferendo uma alternativa aos modelos hegemônicos de manejo florestal, o conservacionista e o que toma os recursos amazônicos como commoditties. “Essa terceira passa por reconhecer que o maior valor da Amazônia são seus recursos biológicos e preserva-los. Precisamos guardar o coração da floresta”, defende Carlos Nobre, doutor em meteorologia e pesquisador sênior no Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais – Inpe.

O professor apresentou sua palestra por meio de teleconferência transmitida na sala Ignácio Ellacuria e Companheiros – IHU, na noite da quinta-feira, (4). O evento integra a programação da 14ª Páscoa IHU. Biomas brasileiros e a teia da vida, que segue com a programação até 14 de junho.

Ao responder as perguntas dos participantes, após a conferência, Nobre chamou atenção para a necessidade de se abrir a caixa preta do agronegócio, que, segundo sua avaliação, é tão horrorosa quanto a das empreiteiras. “O agronegócio é tão corrupto quanto as empreiteiras e esses grupos de poder econômico tomaram conta da classe política do país, subserviente a esses setor. Já começam a aparecer os esquemas e vão aparecer cada vez mais”, projeta Nobre. Todavia, mostra-se relativamente otimista quanto ao cenário futuro da política no país. “As eleições de 2018 vem aí, devemos ver uma renovação significativa e tenho um pequeno e moderado otimismo de que deverá haver mudanças”, frisa.

Do holoceno ao antropoceno

Durante 11 mil anos a espécie humana viveu na era geológica chamada holoceno. Mas o impacto humano no meio ambiente foi tamanho que inauguramos uma nova era geológica chamada de antropoceno. É nesse contexto que as transformações ambientais tomaram escalas globais, e cujo papel da Amazônia é fundamental para o equilíbrio ecológico do planeta.

“A Amazônia possui originalmente 6 milhões de quilômetros quadrados de território. Ela retira uma quantidade enorme de gás carbônico da terra, o que reduz o aquecimento global. Além disso, 18% do fluxo de água que corre para os oceanos vem da Amazônia, pois tem uma hidrologia muito poderosa”, descreve Nobre. “Além disso, 10% das espécies do mundo estão na Amazônia e ela é uma fonte de calor importante para atmosfera, porque a maior parte de energia dos ventos vem da evaporação da água da superfície, que se transforma em calor e energia que move os ventos em escala mundial. Some-se a isso a maior diversidade cultural do planeta”, complementa.

Riscos das mudanças climáticas

Basicamente, segundo explica o pesquisador, o desequilíbrio da Amazônia tem duas causas principais, a substituição da floresta por queimadas e por bois, o que tem gerado um problema de saúde pública grave com a poluição. Essas práticas estão levando a Amazônia a uma condição de savanização, hipótese apresentada por estudos do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais – INPE ainda no início da década de 1990. “O que determina a transição de floresta para a savana é a duração da estação seca. A floresta precisa de água o ano todo e é resistente a fogo, a savana tem uma estação seca muito longa, sete meses aproximadamente, portanto é muito fácil de pegar fogo. No cerrado, o fogo faz parte de sua ecologia, ele aprendeu a lidar com isso e criar resistências, a floresta não”, avalia o pesquisador.

Contando com mais de 1 milhão de quilômetros quadrados de floresta desmatada, a questão que emerge é: qual o impacto no clima se desmatarmos a Amazônia? “Segundo os modelos de estudos, se chegarmos a 40% de desmatamento, muda a configuração da Amazônia de modo que a savanização se torna muito parecida caso houvesse desmatamento total do bioma”, responde Nobre. “Antes do homem uma mata só pegava fogo quando um raio caía na floresta. Hoje o fator humano aumentou em dez vezes a possibilidade de pegar fogo”, pontua.

Desmatamento

O Brasil a partir de 2005 começou políticas públicas que reduziram o desmatamento entre 2005 e 2014, mas novamente voltou a aumentar a partir de 2015. “As políticas de comando, controle e punição e a criação de áreas de proteção ambiental e terras indígenas frearam a derrubada de florestas, protegendo, certa maneira, o coração da floresta”, pondera Nobre.

Um dos mitos desmontados pelo conferencista é a ideia de que é necessário desmatar para ampliar a produção agropecuária, um dos setores mais decisivos à balança comercial brasileira, sobretudo no atual período de recessão econômica. O que há, no fundo, é uma disputa relacionada à especulação imobiliária “A produção agrícola não está relacionada ao deflorestamento, porque a produção cresceu em um período em que o desmatamento diminui. Portanto, uma coisa não está relacionada a outra. O que ocorre é uma dinâmica criminosa de grilagem, de roubar madeira, e depois usa-se o dinheiro da madeira roubada para colocar gado e depois colocar pessoas lá, vendendo lotes, para depois tentar regularizar”, provoca Nobre.

Alternativas

A ideia central, já apresentada na abertura deste texto, é que a aposta na preservação da Amazônia com seus recursos naturais e sua biodiversidade é a alternativa ambiental e econômica mais razoável. Esse modelo, no entanto, não se restringe às política públicas, mas passa por um processo de investimento também do capital privado.

“A Amazônia tem uma terceira via, seus recursos biológicos são o grande diferencial e que podem se tornar uma alternativa. Por exemplo, o Açaí gera uma riqueza de mais de US$ 2 milhões por ano, mas só há açaí se a floresta estiver de pé. Veja, esse é apenas um único produto nessa escala mundial expressiva. Se tivéssemos 10 produtos, essa balança comercial chegaria a 20 milhões de dólares por ano”, sustenta.


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Pe. Geovane Saraiva

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