"Quem me dera ser leal, discreto e silencioso como minha sombra" (Dom Helder Câmara).

terça-feira, 11 de abril de 2017

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Um amor que não tem fim
A história de Deus com o seu Filho e com a humanidade é uma narrativa de fé e de amor sem medidas.
A cruz é a narrativa de um amor que vence a morte, aliado à justiça e à paz.
A cruz é a narrativa de um amor que vence a morte, aliado à justiça e à paz. (Divulgação)

Tânia da Silva Mayer*

Todos os anos, a Igreja faz memória da vida, paixão, morte e ressurreição de Jesus Cristo. Isso ocorre de maneira mais intensa nas liturgias da Semana Santa. Os ritos, cantos, gestos, símbolos e, sobretudo, as narrativas bíblicas dão o tom que nos permite penetrar com profundidade esse Mistério da entrega de Jesus pela vida do mundo. Singularmente, os textos bíblicos têm essa força memorativa que nos coloca em confronto, numa perspectiva existencial, com os acontecimentos fundadores da fé cristã. Por isso, a narrativa ocupa um importante papel nesse tempo. A história da salvação necessita ser outra vez contada minunciosamente, a fim de que as celebrações de agora não acorram à idolatria. Pela narrativa, os fatos salvíficos passados deixam de ser apenas história acontecida e passam a ser uma história sempre por acontecer, de maneira que a ação de Deus para com seu Filho e para com a humanidade continua a significar a possibilidade e o início de uma vida nova.

É, pois, urgente que se narre na Igreja a primigênia história de Deus com a humanidade. Dela depende a fé de todas as gerações, dela depende a radical experiência do ser amado por um amor desmesurado que supera barreiras. Por isso, a história de Deus que deve ser narrada como uma história de fé é a narrativa do amor que transborda nas realidades em que o pecado abundou e que promove a existência, ao suportar e superar o nada, isto é, a morte. Essa história de amor culmina nos eventos da morte e ressurreição de Jesus Cristo, pelos quais “nós fomos transportados da morte à vida” e nos quais “morrendo, destruiu nossa morte, e ressuscitando, restituiu-nos a vida”. E não se trata de um amor romântico, desdobrado em sentimentalismos, o amor com o qual fomos amados é práxis, ação libertadora concreta. Nisto reside sua força para reverter realidades de morte em realidades de vida, mais precisamente, em vida plena e abundante, cada vez gozando de mais dignidade.

A história de Deus com o seu Filho e com a humanidade é uma narrativa de fé e de amor sem medidas. E ela é contada ao mundo por uma palavra banhada em sangue inocente reclamando abandono e solidão. A cruz é essa palavra que está sempre pronta a denunciar a maldade presente nos corações humanos, como, também, a testemunhar que fomos abraçados e amados até o fim. Pedagogicamente, a Igreja nos ajuda a adentrar esse Mistério e a ouvir essa palavra da cruz já no início da santa semana, no domingo de Ramos e da Paixão do Senhor. É sempre sob o horizonte da cruz que toda história da fé pode ser narrada como uma história fundamental da fé. Precisamente, “a palavra da cruz é escândalo e loucura para o mundo, mas para quem tem fé, ela é sabedoria de Deus”, pois na aparente vitória da morte, o amor sem fim reacende as fagulhas da vida, que teimam em contrariar os esquemas opressores e injustos do mundo de trevas.

Os cristãos e as cristãs são convidados a ouvirem a palavra da cruz, que é a narrativa de um amor que vence a morte, aliado à justiça e à paz. Também faz parte desse convite o anúncio dessas realidades que nos interpelam a uma fé compromissada com a defesa da vida, sobretudo das que se encontram ameaçadas pela ganância de poucos poderosos, que colocam o Mercado como prioridade em detrimento do Estado, que deveria proteger todos os cidadãos e cidadãs. Diante da cruz de Jesus Cristo, não é possível ficar indiferente aos sistemas de opressão que maquinam contra os pobres, mulheres e tantas outras minorias. Nesse sentido, a narrativa da primigênia história de amor de Deus por seu Filho e pela humanidade deve ser testemunhada por aqueles que se colocaram em atitude discipular de escuta atenta. Escuta, anúncio e testemunho são os meios que os discípulos e as discípulas de Jesus dispõem para ainda hoje afirmar ao mundo que em Jesus, Deus nos amou com um amor que não tem fim.

*Tânia da Silva Mayer é mestra e bacharela em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia – FAJE; Graduanda em Letras pela UFMG. É editora de textos da Comissão Arquidiocesana de Publicações, da Arquidiocese de Belo Horizonte. Escreve às terças-feiras. E-mail: taniamayer.palavra@gmail.com
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Pe. Geovane Saraiva

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