"Quem me dera ser leal, discreto e silencioso como minha sombra" (Dom Helder Câmara).

sexta-feira, 31 de março de 2017

Sua excelência, a Excelência

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A mente humana, uma vez ampliada por uma nova consciência, jamais retorna à sua dimensão original
Cozinheiros da Toscana servem comida de qualidade gratuitamente a crianças para educar o paladar.
Cozinheiros da Toscana servem comida de qualidade gratuitamente a 
crianças para educar o paladar. (Divulgação)
Por Fernando Fabbrini*

Há pouco tempo tomei conhecimento de uma experiência bastante interessante realizada na Itália. Como sabemos, comida é um assunto que os italianos levam muito a sério. Longe das disputas ridículas e aterrorizantes dos reality shows da TV, lá os ingredientes, o sabor e a qualidade são tratados ainda domesticamente, com reverência quase divinal.

Vale lembrar que a Itália é um dos poucos países do mundo onde as redes de fast-food não fazem muito sucesso. Entre num McDonald’s ou num Burger King de Roma, Florença ou Milão e verá que, sim, estão cheios – mas de turistas. Os italianos em geral torcem o nariz para aqueles bifes de carne moída indefinida colocados no pão e pingando molhos estranhos de composição duvidosa.  

Pois bem: mesmo assim, soube que alguns cozinheiros da minha querida região toscana estão preocupados com o aperfeiçoamento do paladar da meninada. E antes que as crianças sejam abduzidas pelos sanduíches produzidos em série, tomaram uma iniciativa genial. Os chefes escolhem uma manhã de domingo, hora do almoço. Montam mesas nas praças das pequenas cidades e convidam as famílias – principalmente crianças. Ali, cozinham amostras dos segredos da tradição italiana e os servem, gratuitamente, à meninada.

- Giovanni, experimente isso... Chama-se trufa, nasce no fundo da terra... Olha que delícia!

O pequeno Giovanni vive, então, a experiência única e transformadora de experimentar finíssimas fatias de trufas passadas ligeiramente na manteiga – e seu cérebro registra aquele sabor especial. Hum!

- Lucia, prove este aspargos frescos, levemente cozidos em água... Não são ótimos?

Lucia mastiga os aspargos frescos e lambe os beicinhos, extasiada. Nunca mais se esquecerá desse gosto marcante.

Dessa forma, os chefes italianos estão mantendo uma tradição alimentar de seus tataravós e – mais importante – educando, elevando os níveis gastronômicos de uma geração, mostrando a eles a diferença entre “comida de qualidade” e “porcarias feitas em série”. É o padrão da excelência.

“A mente que se abre a uma nova ideia jamais volta ao seu tamanho anterior”. A frase é atribuída a Albert Einstein nas postagens da internet, mas tenho minhas dúvidas. Na mesma época, o poeta e catedrático de Harvard Sir Oliver Wendell Holmes disse algo assim, porém mais sofisticado: “A mente humana, uma vez ampliada por uma nova consciência, jamais retorna à sua dimensão original”.

Não importa muito nessa altura quem foi o autor da frase, mas ambos já haviam percebido a essência da Excelência, com letra maiúscula. O ser humano só se transforma por esta via do “ótimo” superando o “bom”. Do “novo”, superando o “conhecido”. E os padrões melhores não se restringem à cozinha, com certeza. Estão aí, em nossa vida, apontando caminhos para o bem estar pessoal, o convívio harmônico, a realização profissional, o prazer de fazer bem feito – a sabedoria, enfim.

Penso que a educação nas escolas – em todos os níveis, desde o fundamental à universidade – é o instrumento mais importante a ser inspirado pela busca da Excelência. Daí nasce a responsabilidade adicional dos professores, procurando não apenas ensinar a matéria, mas estimulando seus alunos a irem além, a não se contentarem com o que já existe, a experimentarem mais, a desejarem o ótimo, o melhor, o excelente.

E isso se torna uma tarefa urgente num país como o nosso. Bastam alguns minutos de noticiário para perceber que, recentemente, os exemplos do mal e do pior andam ganhando de goleada. Não podemos permitir que o ruim se torne um padrão. Ah, isso não.

*Fernando Fabbrini é roteirista, cronista e escritor, com quatro livros publicados. Participa de coletâneas literárias no Brasil e na Itália e publica suas crônicas também às quintas-feiras no jornal O TEMPO.
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Pe. Geovane Saraiva

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