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sexta-feira, 24 de março de 2017

Homossexualidade e Catolicismo

domtotal.com
Defesa eclesial de 'desordem' na homossexualidade fundamentanda-se em três asserções não só questionáveis, mas insustentáveis.
Relação entre a homossexualidade  e Igreja Católica é bastante complexa e, às vezes, esquizofrênica.
Relação entre a homossexualidade  e Igreja Católica é bastante complexa e, às vezes, esquizofrênica. (Divulgação)

Por Tânia da Silva Mayer*

A relação entre a homossexualidade[1] e a Igreja Católica é bastante complexa e, muitas vezes, esquizofrênica. A Igreja se reconhece como perita em humanidade, compreendendo como sua tarefa “orientar” o gênero humano nos caminhos do mundo, a fim de que todas as pessoas acorram a Deus. Por isso, ao longo das épocas, foi construindo uma doutrina robusta e enrijecida, que, em matéria de sexualidade, apresenta muitas dificuldades para dialogar com o mundo contemporâneo.

Se tomarmos como base o Catecismo da Igreja Católica, veremos que seu método é insuficiente para os nossos tempos ávidos de metodologias mais dinâmicas. Questões fundamentais da fé são respondidas quase que como num jogo de auditório, uma espécie de “pergunte e responderemos”. Obviamente, a linguagem que ali se encontra é primária, no sentido de não poder esgotar a reflexão das questões, estas que devem ser postas à luz da Palavra de Deus e dos sinais de nosso tempo. Nesse sentido, o Catecismo não deveria ser abordado de maneira irresponsável, sobretudo em questões amplas, como a da homossexualidade.

O tema da homossexualidade é tratado em apenas três parágrafos do documento (cf. 2357-2359), nos quais a Igreja fundamenta-se em passagens da Escritura[2] e na Tradição, para dar seu parecer sobre a questão. No que diz respeito aos textos bíblicos citados, o Magistério não propõe uma leitura histórico-crítica dos trechos, tal como faz em outros momentos, outras circunstâncias e outros textos escriturísticos. Para tratar de algumas temáticas, alguns textos são lidos como um manual de ética, para outros há hermenêuticas sofisticadas. Tudo isso promove desconfiança e perda da credibilidade na interpretação das Escrituras pelo catolicismo. Caso a Bíblia fosse um manual de ética, como explicaríamos nosso posicionamento contra a escravidão e nossa condenação à homossexualidade, pressupondo que ambas as temáticas estão justificadas no mesmo livro bíblico, aquela incentivada, essa interditada? A ausência de alguns critérios transparentes na proposição das interpretações de determinadas passagens bíblicas é um desafio a ser superado pela Igreja. Também é preciso enfrentar o anacronismo cultural ao confrontar o mundo do povo da bíblia com o nosso mundo hoje, buscando as mesmas respostas para linguagens profundamente diferentes.

Por outro lado, diferentemente dos discursos fundamentalistas contemporâneos, o Catecismo entendeu que aquilo designado por homossexualidade em homens e mulheres, a saber, a “atração sexual, exclusiva ou predominante, por pessoas do mesmo sexo”, não constitui uma escolha ou uma mera opção, mas algo profundamente radicado no ser humano. Poderíamos dizer ser algo inscrito na natureza de alguns homens e mulheres, ou como diz o Catecismo: “um número não negligenciável de homens e de mulheres”. Nesse sentido, responder a essa tendência enraizada é realizar-se eticamente. Essa não é a constatação do Magistério. O Catecismo precisou assegurar o caráter “intrinsecamente desordenados dos atos homossexuais” a fim de não solapar o terreno da Tradição que sempre o afirmou. Foi preciso, na partida, afirmar tal caráter, fundamentando-o em outras três asserções também questionáveis, a saber: contrário à lei natural; fechamento do ato sexual ao dom da vida; não procedência de uma complementaridade afetiva e sexual verdadeira.

A respeito da “contrariedade à lei natural”, a Igreja parece negar a afirmação anterior sobre o fato de a homossexualidade ser uma tendência profundamente enraizada. Quando ela fala de raízes profundas não está tocando justamente na ideia que cultiva sobre a “lei natural”, como lei inscrita na natureza humana, também chamada de lei moral? Se a resposta for positiva, não haveria sustentação para a afirmação e nem como comprovar que a homossexualidade é uma “inclinação objetivamente desordenada”. No entanto, se o Catecismo entende por “lei natural”, aquela que subjaz a ordem do universo, então ele deveria incluir o ser humano e sua vocação co-criadora do mundo nessa lei. E, desse modo, como num círculo vicioso, o caráter intrinsecamente desordenado dos atos homossexuais poderiam ser refutados.

O fechamento do ato sexual ao dom da vida merece também uma reflexão, uma vez que um casal homossexual, de pessoas biologicamente machos ou fêmeas, não pode realizar, na complementaridade dos corpos, a fertilização da vida. É importante considerar, no entanto, a compreensão primitiva da Igreja a respeito do ato sexual especificamente para a procriação. E deveríamos nos perguntar se as pessoas que se compreendem em relações heterossexuais acorrem ao ato sexual somente para essa finalidade. O mesmo catecismo afirma que a intimidade corporal dos esposos é fonte de alegria e prazer para eles (cf. 2362). Se o ato sexual tem, além de sua função procriadora, uma função unitiva no amor, os atos homossexuais que corresponde a essa função também se justificariam.

Nessa esteira, a ideia de que os atos homossexuais não procedem e não realizam uma complementaridade afetiva e sexual verdadeira não se sustenta diante dos relatos e das narrativas de vida de inúmeros casais homossexuais. Muitos deles se compreendem em ralações fixas e duradouras, com a promessa do amor e fidelidade. Desejam formar suas famílias com a adoção ou procriação de filhos e filhas, com o auxílio das ciências médicas, bem como de gozarem de estabilidade econômica e social, e a garantia de seus direitos de cidadãos. Sem um diálogo verdadeiro com as pessoas que se reconhecem homossexuais, o discurso do Magistério se tornará cada dia mais obsoleto. Esse diálogo verdadeiro cumprirá com a afirmação sincera do Concílio Vaticano II, de que “as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos aqueles que sofrem, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo; e não há realidade alguma verdadeiramente humana que não encontre eco no seu coração” (Gaudium et Spes 1).
[1] Por uma razão de delimitação do tema, não entramos no mérito do debate a respeito das linguagens e terminologias que descrevem o universo complexo e plural das identidades sexuais, embora as julguemos pertinentes e necessárias.

[2] Gn 19,1-29; Rm 1,24-27; 1Cor 6,9-10; 1Tm 1,10. Note bem que o famoso livro do Levítico, no qual fundamentalistas se apoiam para condenar a homossexualidade não é citado pelo Catecismo da Igreja.

Leia também:

Cristianismo e homossexualidade

Os homossexuais, a família e a igreja

Diversidade sexual: um dom?

*Tânia da Silva Mayer é mestra e bacharela em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia – FAJE; Graduanda em Letras pela UFMG. É editora de textos da Comissão Arquidiocesana de Publicações, da Arquidiocese de Belo Horizonte. E-mail: taniamayer.palavra@gmail.com

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Pe. Geovane Saraiva

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