"Quem me dera ser leal, discreto e silencioso como minha sombra" (Dom Helder Câmara).

segunda-feira, 24 de julho de 2017

Catequese com a primeira e segunda infâncias: um olhar psicopedagógico

 Pe. Abimael Francisco do Nascimento

A catequese segundo as idades conta com a assistência da Psicopedagogia como um saber que dá ao catequista o entendimento sobre os processos de aprendizagem, levando a relação entre catequista e catequizando a uma maior interação, seja no campo da fala, seja no campo do aprendizado e, sobretudo, no campo da vivência, pois o catequista passa a propor aquilo que o catequizando tem condições de apreender.
O Documento 107 da CNBB, sobre a Iniciação à Vida Cristã (IVC), nos seus números 211 a 213 trata da catequese com crianças. Sua maneira de tratar o tema é um esforço, em linhas gerais, de apresentar as características da relação que a criança pode ter com a fé, com Deus e com a comunidade. No geral, a exposição do Documento deixa como apelo a necessidade de se conhecer a infância para se oferecer uma catequese adequada.
Um primeiro elemento relevante é saber que segundo as teoria do desenvolvimento, em especial a teoria de Jean Piaget (1896-1980), a infância se divide em fases. No período da primeira infância está o primeiro contato direto com o mundo. A criança estava antes no ventre materno, o mundo lhe era oferecido pelos sentimentos da mãe. Mas, ao sair do útero a criança passa a ter uma relação sensorial e motora com as coisas ao seu redor. Ela escuta o som, vê os objetos, sente o tocar das pessoas, sente o toque do vento. São coisas às quais ela não estava habituada. Sua empreitada é conhecer tudo isso. Aqui o papel dos pais ou responsáveis é apresentar o mundo às crianças, em especial suprindo as necessidades mais imediatas: fome, aliviar cólicas, dar segurança, criar um ambiente onde ela se sinta acolhida.
Normalmente as crianças hoje fazem a fusão extrauterina em um mundo sem elementos religiosos, mas a catequese, inclusive com a assistência da Pastoral Familiar ou da Pastoral da Criança, pode acompanhar as familiar, ajudando-as a já nas primeiras horas da vida fora do útero, oferecem elementos da fé às suas crianças, seja pelo sinal da cruz, seja por uma canção religiosa, seja pela apresentação na comunidade local. Assim, a criança que está na primeira fase de conhecimento do mundo já começa a visualizar à sua volta elementos da fé. Portanto, longe de um condicionamento que alguns podem entender, a inserção de elementos religiosos entra no mesmo patamar de outras realidades da vida que a criança terá que aprender, que conhecer, que se relacionar afetivamente.
Próximo aos dois anos de idade a criança passa a desenvolver a fala, a caminhar e tem um avanço na relação com o mundo, não se trata mais de uma relação apenas sensorial e motora, mas agora ela passa a ter uma ideia de mundo. O desenvolvimento da ideia de mundo é inicialmente centrada em si, uma maneira egocêntrica, o que é próprio da criança; nessa fase ela vai ampliando a visão de mundo na relação com os outros. Com isso a criança já faz operações mentais imaginativas; ao lado das figuras do mãe e do pai ela passa a ter maior consciência de outras relações. As relações passam a influenciar o seu pensamento. Nesse momento uma ação catequética, especialmente na família, pode acontecer pela apresentação de Deus como Pai; a imagem de Jesus pode ser relacionada como um irmão próximo, como um grande amigo. A comunidade pode ser apresentada como um lugar desejado pela família, onde a criança encontrará amiguinhos e “tios”. É importante pontuar que os laços afetivos da criança passam especialmente pelos laços afetivos dos pais ou responsáveis, isto é, a relação de acolhida, rejeição ou indiferença com a fé é originada da relação que os pais ou responsáveis têm com a fé. Deste modo, a formação religiosa dos pais é essencial para a imagem de Deus que a criança terá de agora em diante.
Entre os dois e os seis anos se dá o tempo em que a criança começa o seu pensamento simbólico com acento afetivo, assim, o meio sociocultural integra a criança não só do ponto de vista do conhecimento, mas também na autoconfiança, no sentimento de acolhida, no sentimento de amizade, no sentimento de motivação e curiosidade. A comunidade pode se tornar um lugar de desenvolvimento humano-afetivo permitindo que as crianças nessa fase possam se sentir em casa, mas numa casa maior, uma casa que ela vai entendendo como comunidade, uma casa onde nos encontramos para conviver e para rezar. A catequese como lugar da acolhida pode se empenhar em motivar a imaginação religiosa da criança, dando os primeiros conhecimentos de personagens bíblicos, breves histórias de alguns santos e incentivar à sociabilidade, acolhendo as ações das crianças sem o juízo de certo ou errado, mas orientando para ações de convivência. Quando a afetividade, a emoção é acolhida, a comunidade se torna para a criança lugar de segurança, lugar com o qual ela se liga afetivamente.
Por volta dos seis anos se encerra a primeira infância. Etapa muito importante para a formação da personalidade da criança. Nessa etapa a criança desenvolve o sentimento do ciúme, por isso a atenção dos pais e responsáveis será bastante cobrada, daí a importância de entender que a criança não pode ter a comunidade como uma concorrente na atenção dos pais, isto é, será preciso que os pais e responsáveis se deem conta da vida comunitária, mas valorizarem muito a igreja doméstica, como primeiro lugar da catequese, da evangelização, assim, para a criança, os elementos religiosos serão algo do seu lar, do ambiente da sua família e não uma concorrência externa que lhe tirará a atenção de seus pais ou responsáveis. A igreja doméstica é a primeira comunidade do pai, da mãe e da criança.
Entre os sete e onze anos se dá o que comumente se chama de segunda infância. É nessa etapa que normalmente a criança chega à nossa catequese paroquial. Nessa fase a relação da criança com o conhecimento do mundo é regida pela experiência concreta. Para a prender as operações matemáticas ela usa a assistência dos dedos e aos poucos vai ampliando mentalmente essas operações. A relação com o letramento começa pela quantidade de sílabas e a sonoridade de cada uma, para depois as associar em palavras, o que irá construindo a representação mental de uma língua escrita. Esse processo de aprendizado indica que a criança está no que Piaget chamou de operacional concreto, isto é, o conhecimento da criança é a partir do concreto. Suas operações mentais exigem uma associação visual e palpável. No entanto, é uma fase em que a imaginação da criança está mais aguçada. Tem propensão aos contos de fadas, às histórias de heróis. Assim, a catequese se insere como lugar de descoberta com a história de Jesus e seu ato “heroico” de amar intensamente a humanidade.
Na segunda infância a catequese acolhe uma criança que já desenvolveu muito de sua personalidade, por isso é importante acolher essa criança, escutá-la, valorizar suas experiências, estabelecer uma diálogo que dê importância ao que a criança trás, às suas vivências. Caso haja situações de dor, de medo, de indisciplina, forma-se a oportunidade não para o juízo ou piedade, mas para a motivação, ensinar o processo de discernimento e encorajamento da criança.
O conteúdo da catequese será melhor aproveitado com a relação que a criança estabelecerá com Jesus. Ver Jesus como essa pessoa companheira; não como um castigador, mas um amigo que alimenta e sustenta o seu povo. Aqui a relação entre liturgia e catequese realiza o concreto que a estrutura mental da criança precisa para fortalecer o processo de conhecimento. A criança nessa fase deseja se sentir importante, daí a relevância de se trabalhar pequenos grupos com artes, pinturas, teatros, leituras na liturgia, participação em procissões. É uma valorização da criança e inserção dela na comunidade. Por isso, o encontro catequético perde a disposição de sala de aula e o modelo de sala de aula, para assumir o ambiente de um encontro celebrativo, um encontro com a pessoa de Jesus.
Para além do encontro da catequese em uma sala da Paróquia, pode-se propor atividades em parques para uma catequese sobre a criação; uma catequese numa catedral, num santuário, num mosteiro, para se tratar da história da Igreja. Essas atividades colocam a criança num universo maior que a sua comunidade e lhe dá já as primeiras noções de catolicidade. Também o contanto com obras caritativas lhe desperta para o concreto da caridade, daí a importância de inserir a participação das crianças em campanhas beneficentes que há nas paróquias, seja pela Páscoa, pelo Dia da Criança, pelo Natal. São experiências que afetam emocionalmente as crianças, elas tendem a ficarem marcadas. É também muito importante que as atividades tenham a participação dos pais ou responsáveis, pois estes darão às atividades a ordem de importância que as crianças precisam assumir para elas.
As atividades musculares como cirandas, boneco de lata, o Senhor tem muitos filhos…inserem na catequese a motricidade da criança, algo que elas precisam desenvolver e ainda o lúdico, colocando o ambiente catequético como um lugar gostoso para a criança. Essas atividades não devem ser repetitivas e quando aplicadas seguiriam uma lógica dentro da própria catequese, ou seja, estariam em uma associação com o conteúdo.
Nesse período a criança pergunta muito sobre o porquê das coisas, é a fase de uma curiosidade aguçada. Para lidar com essa curiosidade é muito proveitoso o contato com a Palavra de Deus. Incumbir para casa atividades de contato com a Palavra, assistir um desenho da vida de um santo. Com isso, a catequese ajuda a desenvolver a cognição da criança e pode criar uma relação afetiva entre as verdades da fé e o catequizando.
Todas as atividades nessa fase devem se reger pelo afeto, pela motivação; haverá uma disciplina, mas sobretudo motivação.
Portanto, a catequese com a infância não requer só palavras “infantis”, mas um ambiente que valorize a criança, ofereça-lhe discernimento entre o bem e o mal, envolva sua família e desenvolva em todos um amor a Jesus e a sua Igreja. Hoje temos cada vez mais consciência de que a catequese com crianças não pode ser só para receber a Primeira Eucaristia, mas sim para viver a fé na Igreja e na sociedade.

Mestre em Teologia
Especialista em Psicopedagogia.
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Pe. Geovane Saraiva

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