"Quem me dera ser leal, discreto e silencioso como minha sombra" (Dom Helder Câmara).

quinta-feira, 8 de junho de 2017

Deus não está morto, tornou-se dinheiro

domtotal.com
A religião do neoliberalismo é um novo fetichismo, onde as coisas se tornam deuses.
A harmonia dos fatores no mercado é feita submetendo a reprodução da vida humana às suas leis.
A harmonia dos fatores no mercado é feita submetendo a reprodução da vida humana às suas leis. (Divulgação)

O Papa Francisco: 'Evangelii Gaudium' (2013):

53. Assim como o mandamento «não matar» põe um limite claro para assegurar o valor da vida humana, assim também hoje devemos dizer «não a uma economia da exclusão e da desigualdade social». Esta economia mata. Não é possível que a morte por enregelamento dum idoso sem abrigo não seja notícia, enquanto o é a descida de dois pontos na Bolsa. Isto é exclusão. Não se pode tolerar mais o facto de se lançar comida no lixo, quando há pessoas que passam fome. Isto é desigualdade social. Hoje, tudo entra no jogo da competitividade e da lei do mais forte, onde o poderoso engole o mais fraco. Em consequência desta situação, grandes massas da população vêem-se excluídas e marginalizadas: sem trabalho, sem perspectivas, num beco sem saída. O ser humano é considerado, em si mesmo, como um bem de consumo que se pode usar e depois lançar fora. Assim teve início a cultura do «descartável», que aliás chega a ser promovida. Já não se trata simplesmente do fenómeno de exploração e opressão, mas duma realidade nova: com a exclusão, fere-se, na própria raiz, a pertença à sociedade onde se vive, pois quem vive nas favelas, na periferia ou sem poder já não está nela, mas fora. Os excluídos não são «explorados», mas resíduos, «sobras».

55. Uma das causas desta situação está na relação estabelecida com o dinheiro, porque aceitamos pacificamente o seu domínio sobre nós e as nossas sociedades. A crise financeira que atravessamos faz-nos esquecer que, na sua origem, há uma crise antropológica profunda: a negação da primazia do ser humano. Criámos novos ídolos. A adoração do antigo bezerro de ouro (cf. Ex 32, 1-35) encontrou uma nova e cruel versão no fetichismo do dinheiro e na ditadura duma economia sem rosto e sem um objectivo verdadeiramente humano. A crise mundial, que investe as finanças e a economia, põe a descoberto os seus próprios desequilíbrios e sobretudo a grave carência duma orientação antropológica que reduz o ser humano apenas a uma das suas necessidades: o consumo.

56. Enquanto os lucros de poucos crescem exponencialmente, os da maioria situam-se cada vez mais longe do bem-estar daquela minoria feliz. Tal desequilíbrio provém de ideologias que defendem a autonomia absoluta dos mercados e a especulação financeira.
O que é o neoliberalismo?

O Neoliberalismo reduz a economia a pesquisas de mercado, um cálculo de dinheiro, sem qualquer ligação com a vida humana. Todos os fenômenos humanos são reduzidos a fenômenos comerciais. O Neoliberalismo é um anti-humanismo radical e um totalitarismo mercantil.

"Hinkelammert mostrou que a ideia central do neoliberalismo é a negação de toda utopia de inclusão, o respeito pela vida de todos e seus direitos, ao afirmar que é inevitável a imposição dos interesses do mais forte através do mercado e do Estado".

"... a harmonia dos fatores no mercado é feita submetendo a reprodução da vida humana às leis do mercado, por isso, se a oferta de trabalho excede a disponibilidade de alimentos, a diminuição da população por morte de fome permite recuperar o equilíbrio".

"... o mercado não permite reproduzir todas as vidas, não garante o direito à vida de todos, porque pode ser necessário sacrificar vidas individuais para preservar um maior número de outras vidas" (Hayek)

"Voltou o capitalismo selvagem, que incluiu ditaduras militares no Terceiro Mundo para eliminar toda a resistência às modernizações neoliberais"

"Surgiu uma burguesia selvagem, que se desborda na destruição sem aceitar argumentos contra ela. Um capitalismo frenético se volta contra a riqueza do planeta. A natureza nunca foi destruída de forma tão impiedosa. Este capitalismo aparece em nome de anti-estatismo e anti-intervencionismo ao Estado, anti-reformismo e da denúncia e perseguição dos movimentos populares "

"O conceito de ser humano: apenas somos porque que temos. Somos mais humanos enquanto mais propriedades temos. A maior humanidade na maior propriedade. Eu sou o meu dinheiro, eu tenho o poder que me dá o meu dinheiro, tenho as qualidades que me dá o meu dinheiro".

"A chanceler (alemã) Angela Merkel disse que a democracia deve estar de acordo com o mercado, isto é, a democracia não responde ao povo, mas ao mercado. Esta é precisamente uma definição muito adequada deste novo totalitarismo de mercado. Isso é do que se trata hoje. Estamos enfrentando o dilema democracia ou mercado. Ou um mercado que se impõe a todo, em todos os lugares e em todos os momentos, ou o desenvolvimento de uma democracia que responde à vontade do povo e que exige ao mercado se adaptar à democracia. Uma democracia que, portanto, considere o ser humano no centro e não o mercado".
Citações do livro "Modernidade e Utopia. O pensamento crítico de Franz Hinkelammert.". Autor: Jorge Vergara Estévez. 2015.

O neoliberalismo cria uma nova religião

Deus não está morto, tornou-se dinheiro. O novo deus é o ouro, que é onipotente e onipresente. Certamente Deus está vivo, mas como dinheiro. O problema não é o ateísmo, mas a idolatria.

A religião do neoliberalismo é um nova fetichismo, onde as coisas são transformam em Deus e Deus torna-se coisa. Nas o fetichismo do dinheiro, do mercado e da mercadoria. Os bancos são as novas catedrais e os empresários são os novos sacerdotes. O dinheiro é a graça divina que nos salva quando transgredimos as leis do mercado.

Cumpre-se o que diz no Evangelho: "Jesus entrou no templo e expulsou todos os vendedores e compradores que lá estavam. Virou as mesas dos cambistas e as cadeiras dos que vendiam pombas. E disse-lhes: Está escrito, minha casa será chamada casa de oração, Vós, porém, fazeis dela um covil de ladrões" (Mt 21,12-13).

Voltamos em algumas reflexões de F. Hinkelammert sobre os argumentos teológicos de Hayek, um dos principais teóricos do neoliberalismo, que nos diz que só Deus poderia saber a priori os preços antes de serem determinados pela oferta e a demanda. Também se apoia na tese da mão invisível de Smith, que seria a providência divina, que produziria a tendência ao equilíbrio no jogo de fatores de mercado.

Michael Novak, teólogo católico neoliberal, vai mais longe, ele afirma que as empresas multinacionais sacralizam o mercado e confiam no nível terreno os atributos que a teologia cristã dá a Deus.

O neoliberalismo vivido desde baixo e desde fora.

Repetimos o texto do Papa Francisco: "Já não se trata simplesmente do fenómeno de exploração e opressão, mas duma realidade nova: com a exclusão, fere-se, na própria raiz, a pertença à sociedade onde se vive, pois quem vive nas favelas, na periferia ou sem poder já não está nela, mas fora. Os excluídos não são «explorados», mas resíduos, «sobras»".

Estes são identificados como resíduos e sobras, eles vivem principalmente nas ruas das grandes cidades. A rua é um lugar onde se dorme, procura-se alimento e se sobrevive em trabalhos esporádicos e informais. Um mundo onde se sofre a solidão, a humilhação, a marginalização e a insegurança. Um mundo considerado depósito de lixo humano, sujeito a frequentes "limpezas sociais". A rua é um lugar traumático de violência cotidiana, de crime, de prostituição, de uso de drogas e álcool e onde se sofre a repressão e as ameaças de prisão.

A rua também é um lugar onde as relações humanas são tecidas, grupos e famílias são formados, vivem-se momentos de solidariedade e relações de todos os tipos. Muitos procuram sair desta vida, mas outros se acostumam e não querem sair. Outros se afastam e voltam, saem e regressam. Eles não querem viver nela, mas relutam em abandoná-la.

Às vezes surgem "gangues" ou "maras", que são extremamente violentas, mas também responde a uma busca de refúgio, onde encontram solidariedade e identidade. Existem situações extremas: dormir sob uma ponte, comendo dos lixos dos ricos, sofrendo total desamparo e solidão. Experimentando o sentimento de "fundo do poço" e viver "para além da morte".

Esta situação pode durar muito tempo e tornar-se uma estrada sem fim, sem saída. Eles carregam roupas velhas e sujas "rasgadas". Um rosto descuidado e desfigurado. Muitos carregam uma "casa móvel": papelão e materiais de sobrevivência para dormir. Sua vida é muito solitária e sem qualquer relação social. Os cães são os melhores amigos, que os defendem de ataques e compartilham o frio da rua. Alguns não dormem em albergues, para não se  separar dos "seus" cães.

Espiritualidade contra o fetichismo: a luta dos deuses

Na rua, nesse mundo de resíduos e sobras, também se vivem experiências "religiosas", até "místicas". Não interessa saber se são reais ou imaginárias. Tampouco interessa sua identidade "confessional". Desaparece o limite o visível e o invisível.

Alguns testemunhos recolhidos na rua:

"Eu fui um dia em uma igreja cheia de gente e vi que Deus estava me observando, só eu, ninguém mais. Aquele olhar pessoal de Deus mudou minha vida para sempre".

"Eu sempre fico feliz porque Deus está comigo em tudo".

"Eu não acredito em Deus, mas tenho certeza de que se Deus existisse, ele iria acreditar em mim".

"Eu não acredito em Deus, mas Deus me ama".

"Eu nunca senti a ausência de Deus na minha vida".

"Todo mundo me abandonou, só Deus que não".

O homem e a mulher da rua não têm medo, porque sabem "que Deus dorme com eles na rua".
Testemunho anônimo de um "garoto de rua" (desta vez eu gravei todo o texto).

"Não tenho onde que colocar minha cabeça.

As estrelas me acompanham.

Muitas noites foram aliadas e os meus descansos interrompidos.

Com as mãos quebradas, caminho às vezes descalço.

Bato em sua porta, só encontro rejeição.

Observam o meu corpo, degradam a minha alma.

A morte me chama, dentro dos meus olhos.

Esperanças roubadas.

Não tenho mais ilusões, só o meu nome.

Não sei sonhar com carrosséis coloridos.

Digo pai, mãe,

e quando chego na última vogal eles somem mais uma vez ...

Conto, tiro, quando tenho moedas.

Sei onde moram os ladrões, alcoólatras,

e aqueles que roubaram a minha inocência.

Alguns dias atrás, Quem se importa?

começo de novo, mais uma vez

Alguém me amaria?

Você quer saber o meu nome?

Eu sou um garoto de rua?"
Gritos e lamentos inspirados em textos bíblicos.

"Pai nosso que estás na rua"

"Ave Maria porque destes à luz a Jesus na rua"

Aqueles que vivem na rua são pobres, famintos, tristes, odiados, são insultados, são considerados criminosos, mas o que é incrível é que eles estão felizes,

Jesus disse-lhes:

Felizes vós, os pobres, porque vosso é o reino de Deus.

Felizes vós, que agora tendes fome, porque sereis saciados.

Felizes vós que agora chorais, porque haveis de rir.

Felizes sereis quando os homens vos odiarem, quando vos rejeitarem, insultarem e proscreverem vosso nome como infame. Alegrai-vos naquele dia e exultai, porque no céu será grande vossa recompensa (Lucas 6, 20-23).

Estes testemunhos foram recolhidos pessoalmente, e podem ser encontrados no livro: "Ellas y ellos hablan. En la calle y en el Hogar de la Esperanza".

Bibliografia.

ESTÉVEZ, Jorge Vergara. Modernidad y Utopía: El pensamiento crítico de Franz Hinkelammert. 2015.

HINKELAMMERT, Franz: Crítica a la razón utópica. San José, Costa Rica, 2000.

COMBLIN, José: El neoliberalismo: Ideología dominante en el cambio de siglo. Santiago de Chile: Ediciones Chileamérica, 2002.

BONILLA, Yadira; NAVARRO, Orlando; RICHARD, Pablo: "Ellas y ellos hablan. En la calle y en el Hogar de la Esperanza." Costa Rica: Humanitas, 2012.

RICHARD, Pablo. San José, Costa Rica, 23 mayo 2017. A dos años de la beatificación de Mons. Romero (23 maio de 2015).


Religión Digital
Tradução: Ramón Lara
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Pe. Geovane Saraiva

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