"Quem me dera ser leal, discreto e silencioso como minha sombra" (Dom Helder Câmara).

sexta-feira, 26 de maio de 2017

É o fim da Cracolândia?

domtotal.com
Grupos da Igreja Católica atuam de forma constante tanto na região da Cracolândia quanto com pessoas em situação de rua.
Se a Igreja parasse de atuar na Cracolândia, esta provavelmente seria cinco vezes maior.
Se a Igreja parasse de atuar na Cracolândia, esta provavelmente seria 
cinco vezes maior. (Eduardo Ogata/Secom/PMSP).

“As respostas precisam ser humanizadas e não padronizadas”, disse o Padre Julio Lancellotti, vigário episcopal para a Pastoral do Povo da Rua da Arquidiocese, em entrevista ao O SÃO PAULO, sobre as ações que têm sido feitas pela Prefeitura e o Governo do Estado na região da Cracolândia, desde o domingo, 21, para desarticular o tráfico de drogas e revitalizar o bairro da Luz, no centro da capital paulista.

Muitos vídeos e fotos circularam pelas redes sociais e mostraram a chegada de 500 homens das polícias civil e militar no domingo pela manhã. Eles utilizaram força e bombas de efeito moral para desmontar diversas barracas de tráfico de drogas e dispersar a população que estava na região, a maioria usuária de crack.

A Prefeitura, por meio da Secretaria Especial de Comunicação Social, informou à reportagem que 500 pessoas foram acolhidas e dessas, “28 com problemas de saúde foram encaminhadas para hospitais e AMAs do entorno; duas foram encaminhadas para tratamento no Centro de Apoio Psicossocial Álcool e Drogas (Caps AD), uma foi internada para desintoxicação e outra retornou para a sua família. Além disso, 12 dependentes químicos foram internados voluntariamente no Centro de Referência de Álcool, Tabaco e Outras Drogas (Cratod), da Secretaria de Estado da Saúde”.

Ainda segundo a Secretaria, 600 profissionais da Prefeitura e do Governo do Estado estiveram nas ruas para triagem, diagnóstico e acolhimento dos usuários de drogas que circulavam na região.

Na segunda-feira, 22, o Departamento Estadual de Prevenção e Repressão ao Narcotráfico (Denarc) divulgou o balanço da operação na Cracolândia. Foram detidas 53 pessoas, dessas 48 eram traficantes; duas foram detidas pela Polícia Militar por roubarem uma padaria e três são adolescentes que foram apreendidos por tráfico.

Segundo o diretor do Denarc, Ruy Ferraz Fontes, 80% dos presos integram uma facção criminosa e dois deles eram os líderes do tráfico. “O objetivo principal era atingir o escalão, os atacadistas – que vinham abaixo do escalão que administrava a distribuição de drogas na região – e os varejistas”, explicou.

Para o Padre Julio existem muitas questões que ainda não foram respondidas. “Quem são os traficantes que foram presos? Porque os grupos que estão espalhados continuam sendo abastecidos [com o crack e outras drogas]? O tráfico – e isso já dissemos várias vezes para as autoridades – funciona naquela região e também em toda a cidade, com base numa corrupção muito forte, do crime organizado com a participação de agentes do poder público”, denunciou.

Dispersão

Ana Maria da Silva Alexandre, agente de pastoral e colaboradora da Casa de Oração do Povo da Rua, afirmou que “ninguém quer que a Cracolândia exista. É uma situação muito triste, mas é importante que a questão seja considerada um problema de saúde pública e não somente de segurança”. Para ela, que acompanha diariamente a situação na região, a ação foi muito violenta e inesperada.

Ela e o esposo, Luiz Carlos Pietro Alexandre, que também é missionário, se mobilizaram e, junto ao Padre Julio Lancellotti, recolheram cobertores para levar às pessoas. “Vi uma média de quase 300 pessoas que foram se abrigar em baixo de um posto de gasolina. Na noite fria de domingo, sem cobertores ou roupas de frio e sem lugar para ficar. Estavam numa situação muito triste”, recordou. 

Segundo Ana, vários usuários de crack que estavam concentrados na Luz simplesmente se dispersaram. “Tem um grupo na Marechal Deodoro, um grupo no Parque da Luz, outro em frente ao Metrô Luz e no Metrô Armênia. A Cracolândia se dividiu em diversas ‘pequenas Cracolândias’. Dispersar as pessoas não resolve. Sabemos que há uma limpeza do local e que haverá também investimentos imobiliários na região”. 

Cena que se repete

Ana ressaltou que a gestão anterior também não tinha programas efetivos para ajudar as pessoas na Cracolândia; e Padre Julio lamentou que ano após ano ações como esta se repetem. Sobre a operação do domingo, em particular, ele disse que foi feita “com muita pressa e que não levou em conta os seres humanos. As pessoas estavam muito agitadas, foi uma situação muito triste. Conseguimos acolher alguns que pedem acolhimento na Missão Belém, mas tememos que, com a dispersão, haja uma onda de violência contra eles, porque a ação da polícia no domingo, indiretamente, autorizou a população em geral a agredir as pessoas que forem vistas usando crack”.

Missão!

Grupos da Igreja Católica atuam de forma constante tanto na região da Cracolândia quanto com pessoas em situação de rua. Ana Maria afirmou que somente a “Missão Belém” mantém mais de 2.200 pessoas em suas casas de acolhida, e há iniciativas também da “Voz dos Pobres”, “Aliança de Misericórdia”, “O Caminho”, a Associação Franciscana de Solidariedade (Sefras) e a “Comunidade Emaús”.

“Se a Igreja parasse de atuar na Cracolândia, esta provavelmente seria cinco vezes maior. Além da atuação presencial, vários grupos de pastoral fazem o acompanhamento das famílias dos usuários de drogas. Quando você trata o usuário de drogas, você precisa tratar as famílias também”, afirmou Ana Maria.

Desarticular o tráfico

Ivanildo de Andrade, psicólogo especialista em Saúde Pública com ênfase em dependência química, acompanha há muitos anos a situação da Cracolândia e apresenta o programa “Tocando em Frente”, sobre dependência química, na rádio 9 de Julho. Ele afirmou à reportagem que a ação policial do domingo foi inevitável e necessária, uma vez que a região era dominada por traficantes que impediam, inclusive, o acesso dos agentes públicos aos usuários de crack. “Não há como ocupar aquele espaço e desmobilizar todo aquele cenário de uso de crack sem uma intervenção da Segurança Pública, identificando os traficantes e desarticulando a ação criminosa que existe ali”, disse.

O Especialista, no entanto, acrescentou que a ação da Prefeitura e do Estado não deve se limitar e essa operação, mas deve haver um acompanhamento dos dependentes. “Acabou momentaneamente aquele fluxo de uso de crack, mas o problema da Cracolândia, da dependência química e do tráfico não foi solucionado. Precisa haver uma ação a médio e longo prazo, perene e contínua, tanto da Segurança Pública quando de ações de Saúde, Assistência Social, Cultura e Lazer”, opinou.

Ivanildo recordou, ainda, que a dependência química é uma doença complexa, cujo combate exige ações igualmente complexas. “Se para recuperar um único dependente químico é necessário muito trabalho e envolvimento de profissionais e projetos terapêuticos distintos, não há como trabalhar com uma população de 2 mil usuários de crack se não houver um planejamento de saúde pública permanente, que não se limite a uma única gestão”.

Reurbanização

O processo de urbanização da região rebatizada de Nova Luz conta com um programa de utilização dos espaços públicos, construção de moradias populares e investimentos privados. De acordo com a Prefeitura, o programa será realizado paralelamente com os trabalhos de assistência social e saúde aos dependentes químicos.

Após a ação do domingo, foi iniciada a demolição dos imóveis abandonados que, segundo a Prefeitura, eram usados para o consumo de drogas. No local, serão construídas habitações de interesse social, uma creche, uma escola pública e um Centro Educacional Unificado (CEU). Num primeiro momento, a região dessas futuras obras será cercada por tapumes e ocupada para evitar o retorno da movimentação de dependentes químicos ao local.


O São Paulo
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Pe. Geovane Saraiva

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