"Quem me dera ser leal, discreto e silencioso como minha sombra" (Dom Helder Câmara).

domingo, 9 de abril de 2017

O verdadeiro Rei

domtotal.com
Comentário ao Evangelho de Mateus 26,14-27,66 (Correspondente ao Domingo de Ramos, ciclo A do Ano Litúrgico).
Teceram uma coroa de espinhos, puseram a coroa em sua cabeça, e uma vara em sua mão direita.
Teceram uma coroa de espinhos, puseram a coroa em sua cabeça, e uma vara em sua mão direita. (Divulgação)
Por Ana Maria Casarotti*

No Domingo de Ramos, que celebra a entrada triunfal de Jesus em Jerusalém, lê-se a Paixão de Jesus. Neste ano, ciclo A, é lida a narrativa no evangelho de Mateus.

No início do capítulo 26 deste Evangelho Jesus anuncia sua crucifixão (26, 1-2), depois aparece o complô das autoridades para matar Jesus (26, 3-5); continua com a Unção de Betânia (26, 6-13) que continua com o relato que começamos a ler hoje que é o trato de Judas com as autoridades (26, 14-16).

Jesus sabe o que vai acontecer e isto oferece um importante sentido para sua entrega que muitas vezes não é fácil de compreender. Sem dúvida, ele poderia ter evitado, mas ele não escolhe o caminho fácil: fugir para o deserto, ir para longe de Jerusalém, mudar seu discurso e tantas outras oportunidades que até os discípulos lhe sugerem.

Ele é fiel a sua opção pelos mais pobres, pelos desprezados da sociedade, e fala com dureza aos sistemas opressores, sejam políticos ou religiosos. Jesus é Rei dos pobres, dos oprimidos, dos rejeitados, dos que não “valem porque não produzem”, não contribuem, num desenvolvimento econômico que favorece uns poucos e deixa de lado a grande maioria: pessoas, cidades, países inteiros.
Jesus escolhe estar do lado das vítimas, e neste domingo meditamos esta opção de sua vida! Não se deteve pelas ameaças recebidas e pelos insultos sofridos. Não desistiu do seu caminho.

Há vários exemplos de pessoas que seguiram o estilo de vida do seguimento de Jesus até o fim. A vida de Vicente Cañas, escreve Paulo Suess é uma advertência. “A religião pode ser “religião do mercado”, para acumular mercadorias e “religião do sagrado”, para defender a vida. Carregamos os tesouros de Deus em vasos de barro. Vicente deu a sua vida pelos Enawenê Nawê na Igreja que procura ser “companheira de caminho” (DAp 396) dos índios e “casa dos pobres” (DAp 8, 524), segundo a proposta do “Documento de Aparecida” (2007). (texto disponível Provocar rupturas, construir o Reino. Vicente Cañas SJ: Fragmentos de seu martírio) 

Há muitas vidas na América Latina que são exemplo desta entrega aos mais empobrecidos. Há poucos dias (24 de março) lembramos a morte de Dom Oscar Romero, arcebispo de El Salvador, assassinado pela sua opção pelos mais pobres, pelos que eram torturados e mortos pelo regime opressor. “Uma coisa é certa: se ele não tivesse denunciado a injustiça social e a opressão dos empobrecidos, ainda estaria vivo. É verdade, ele amava a Deus. Mas foi assassinado porque amava o homem sofredor.

Falando sobre Don Oscar Romero, disse Dom Vicenzo Paglia: “Romero não viveu para si mesmo, mas para o povo, como Jesus. Este testemunho é tão claro que, num mundo globalizado, ele consegue tocar os corações de milhões e milhões de pessoas. E se queremos transformar o mundo, temos de transformar os corações das pessoas, da mesma forma como fez Romero”.

Neste momento podemos perguntar-nos: quais são os valores que Jesus defende com sua forma de agir, suas palavras e sua opção de vida? Quais são os impérios reinantes que impedem que vivamos na igualdade, na justiça, e numa distribuição equitativa dos bens?
Podemos nos acostumar a viver com as pessoas sem teto, sem uma moradia segura, aqueles que lutam pelos direitos para seus filhos e filhas e até preferem sair do seu país assolado pelas guerras injustas na procura de um lugar mais tranquilo?
Lemos sobre os feminicídios, sobre a necessidade da igualdade de gênero e sem dúvida Jesus está nessa defesa, nessa luta pelos direitos das pessoas consideradas inferiores.

Jesus não foi condenado por uma causa justa. A causa da sua condenação e morte é que seu atuar incomodava os que estavam acomodados num sistema opressor e os desestabilizava. Eles não queriam escutar acusações e consideravam que o povo simples, sem cultura, não era digno de ser escutado nem considerado.

A morte de Jesus é uma morte injusta, ele recebe uma condenação injusta que o leva a uma morte humilhante. Mas, na sua pobreza e fragilidade, esconde-se o grande mistério do Reino de Deus, que prefere os pobres, os ignorados, os excluídos e os condenados pela sociedade que se achava proprietária da vida das pessoas.

Nesta semana somos convidados a entrar neste Mistério de um amor até o extremo por fidelidade ao Pai e ao Seu projeto, que é a igualdade da pessoa humana sem distinção nenhuma: seja homem ou mulher, indigente, carente, necessitado!

Neste domingo peçamos ao Senhor que, assim como ele, tenhamos um amor que se entrega pelas pessoas, sem distinção de raça, família, formação acadêmica ou tantas outras construções sociais que estabelecem muros de separação entre as pessoas e países.

Creio em...

"Eu sei, em quem acreditei" 2 Tim 1,12
Eu sei! Eu sei!
Estou convicto!
Tenho certeza!

E não: eu acho.
Presumo, suponho,
Imagino, sonho.

Sei que Tu estás comigo, 
Sei que me acompanhas, 
Sei que caminhas ao meu lado.

“Eu sei, em quem acreditei”
Vejo-Te no recôndito da minha alma
E no próximo caído e despojado,
Crucificado entre Chuí e Oiapoque. 

Ouço a Tua voz 
Em Tua Palavra eternamente atual 
E no surdo clamor dos pobres e excluídos.

Sinto a Tua presença na Eucaristia, 
Corpo entregue e Sangue derramado,
E na irmã, no irmão que chora e padece.

“Eu sei, em quem acreditei”
Tu és amor. 
A graça de todas as graças
É acreditar no Teu amor:

O amor que não tem limites,
O amor que não se cansa,
O amor que se doa a si mesmo.

O amor que abrasa,
O amor que cativa,
O amor que jamais passará!

“Eu sei, em quem acreditei”


IHU
*Ana Maria Casarotti é religiosa da congregação das Missionárias de Cristo Ressuscitado.
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Pe. Geovane Saraiva

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