"Quem me dera ser leal, discreto e silencioso como minha sombra" (Dom Helder Câmara).

sábado, 1 de abril de 2017

Manifesto contra a essência

domtotal.com
A gente é o que vai sendo. A gente é o que dá conta de ser.
Grace Passô apresenta o monólogo 'Vaga Carne' no SESC.
Grace Passô apresenta o monólogo 'Vaga Carne' no SESC.
Gilmar Pereira*

Tenho certo problema com essa história de essência. É estranha a história de um estrato humano, uma substância última que compõe o indivíduo. Sei lá... Soa-me absurdo o conselho de buscar a própria essência, como se tivesse algo por detrás da própria pessoa (Então não seria ela!) ou dentro de si (Ela seria só uma parte, aquilo que está dentro de si?!).

Entendo que o indivíduo só pode ser ele e isso é dito no seu modo de ser no mundo. Uma pessoa faz ruindades a vida toda e depois alguém vai dizer que no fundo era boa ou que sua essência o era e que ela só não despertou para tal? Faça-me um favor! A gente é o que vai sendo. A gente é o que dá conta de ser.

Pensar assim é bom porque não fecha o indivíduo, não determina que sempre será do mesmo jeito. O ser humano não é pau que nasce torto e nunca se endireita. Temos ossos e, se algum estiver deformado, dá para serrar e juntar de novo. Foi assim com Inácio de Loyola que, recuperado de um estilhaço de uma bala de canhão, ficou com a perna torta como se um osso sobrasse. O santo simplesmente mandou quebrar a perna e raspar o que sobrou do processo de calcificação para que o membro se endireitasse. As dores foram atrozes e piores do que a primeira cirurgia, mas deu certo.

Mudar dói. O problema é que o humano tem a mania de se calcificar pelos hábitos, vai ficando rígido, pegando manias, fazendo de tudo um ritual! Há quem queira mudar sempre, fazendo mesmo isso se tornar um hábito. Não fazem a mesma coisa no conteúdo, mas o fazem na forma. É como quem troca de namoro, mas se relaciona do mesmo jeito todas as vezes. Na aparência, variação; na estrutura, repetição.

De fato, algumas coisas vão se repetir na vida e isso não é mau. Trata-se de um processo de purificação, de eleição daquilo que se quer ser. E é isso que se repete em nós através do tempo que chamamos identidade.  A identidade de alguém não é sua essência, mas aquilo que segue sendo. Com o tempo a pessoa muda, porém algo permanece. Aquilo que fica das minhas mudanças e faz com que eu continue sendo eu, não outro, não se trata de outra coisa que não a relação que cada parte estabelece em mim. Isso quer dizer que sou a relação de tudo o que me constitui, constituiu e constituirá, tendo meu corpo como lugar de tais relações. Dizendo de outra forma, sou meu corpo e ele é o lugar do entrecruzamento das relações que me constituem.

O que isso quer dizer? Que em mim carrego todas as experiências vividas, porém reelaboradas, modificadas pelas outras vivências. Se perguntar da minha identidade, não posso dizer bem dela. Identidade é um princípio de igualdade quando uma coisa é igual à outra. Só que igualdade perfeita não existe. Talvez se possa falar que algo só é igual a si mesmo. Dessa forma, a identidade consiste na afirmação do ser em si: eu sou quem sou. Você só me conhecerá experimentando-me e eu só me conhecerei vivendo intensa e autenticamente.

A busca da identidade? Isso é só uma busca de metáforas para dizer “eu”. Multifacetado e plural, esfinge pronta a devorar. Não me decifre. Comamo-nos!

Vaga Carne

Vaga Carne é o primeiro solo de Grace Passô, que também assina o texto do trabalho. A peça é um campo de jogo entre palavra e movimento, onde um corpo de mulher vive a urgência de discurso, à procura de suas identidades e de pertencimento. Em sua narrativa, uma voz errante, capaz de invadir qualquer matéria sólida, líquida ou gasosa, resolve, pela primeira vez, invadir um corpo de mulher e, a partir dessa experiência, narra o que sente enquanto sujeito, o que finge sentir, o que é insondável em si, o que sua imagem é para o outro. Sonda o que significa um corpo enquanto construção social.

Local: Sesc Palladium (Rua Rio de Janeiro, 1046 – Centro)

Classificação: 14 anos

Duração: 50 minutos

Sessões: 05 e 06 de Abril – 21h
               07 de Abril – 19h e 21h
               08 de Abril – 18h e 21h

Ingresso e informações: Tudus e Sesc.

*Mestre em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP, graduado em Filosofia pelo CES-JF, graduando em Teologia pela FAJE. Apaixonado por arte, cultura, filosofia, religião, psicologia, comunicação, ciências sociais... enfim, um "cara de humanas". Escreve às sextas-feiras.
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Pe. Geovane Saraiva

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