"Quem me dera ser leal, discreto e silencioso como minha sombra" (Dom Helder Câmara).

quarta-feira, 15 de março de 2017

Esse Evangelho subversivo

domtotal.com
Colocar o servo com a mesma importância e dignidade do imperador, ao mesmo tempo que liberta o oprimido, gera também o ódio do opressor.
Igualdade de todos diante de Deus é um dos aspectos subversivos do Evangelho.
Igualdade de todos diante de Deus é um dos aspectos subversivos do Evangelho. (Reprodução)
Por Fabrício Veliq*

Desse modo, não existe diferença entre judeu nem grego; entre escravos e livres, entre homens e mulheres: todos vocês são um em Cristo Jesus. Gl 3:28.

Talvez uma das ideias mais subversivas que podemos encontrar no texto bíblico é de que todos somos iguais perante Deus não havendo a menor diferença se somos brancos, negros, pardos, homens, mulheres, homossexuais, empregados, desempregados etc. Embora para a maioria de nós essa ideia seja “óbvia” (pelo menos nos discursos), para o tempo em que textos como a resposta negativa dada por Deus ao pedido de Moisés quando esse pede para “ver” a glória de Deus, ou o próprio texto paulino que fala a respeito da não diferenciação entre homens, mulheres, livres e escravos, foram escritos essa era uma ideia totalmente estranha.

Pensemos o próprio exemplo do texto de Paulo que já está alguns séculos mais próximos de nós do que o livro do Êxodo. À época do texto paulino, a estratificação social era bem mais explícita e as diferenças também o eram. Um servo não tinha a mesma importância que o senhor, nem o senhor a mesma importância que o imperador. Isso era algo totalmente impensado e não fazia o menor sentido para a sociedade daquela época. Havia graus de importâncias diferentes legitimados tanto pela religião quanto pela sociedade.

A proposta do Evangelho, assim, tem seu caráter subversivo. Colocar o servo com a mesma importância do imperador e, ainda mais, com a mesma dignidade que este último, ao mesmo tempo que liberta o oprimido gera também, de certo modo, o ódio do opressor.

Em nossos dias, em que se crescem os discursos nacionalistas e separatistas, percebemos que o que está em jogo passa também pelo sentimento de “diferenciação” em relação ao outro que não faz parte do mesmo estrato social ou mesma região da qual pertencem aqueles e aquelas que buscam esse tipo de ruptura. Ao dizerem que determinado país pertence somente a um povo, ou que uma região deve se separar da outra por se considerar mais “inteligente” ou “produtiva” que outra, ou que determinado país deve ter a primazia sobre os outros, ou ainda que povos devem se converter a determinada religião para terem direito à vida e a condições dignas, o que se tem dito é que há graus de importância diferentes dentro da mesma sociedade e que algumas pessoas são mais dignas e importantes que outras.

O que impressiona é perceber que vários e várias que pregam e sustentam esse tipo de coisa se dizem cristãos e cristãs e vão aos cultos e missas todos os domingos, cantam sobre a unidade e acham lindas as mensagens de paz entre os povos. Contudo, no dia-a-dia, em redes sociais, e em seus trabalhos, faculdades etc, frases do tipo “bandido bom é bandido morto”, “tá com dó, leva para casa”, “não tem nada que reabilitar preso, ele tem é que sofrer para pagar pelo que fez”, “tá na rua pedindo é porque é vagabundo e não gosta de trabalhar”, costumam ser comuns para muitos desses e dessas.

O caráter subversivo do Evangelho, ao colocar todos e todas sob a categoria do pecado, bem como com a mesma dignidade através da misericórdia de Deus, dessa forma, nos convida à humildade. Convida-nos a perceber que somos tão pecadores e tão capazes do mal quanto àqueles e àquelas que condenamos em nossos discursos.

O Evangelho nos convida, assim, não a pensarmos: “nossa, graças a Deus sou melhor que esses ladrões e assassinos que vejo aparecendo condenados na TV e nas redes sociais”, mas, antes, pensarmos: “se Deus teve misericórdia de mim, por que não teria desse assassino, estuprador, ladrão etc?".

A subversividade da proposta evangélica se manifesta em diversas coisas e a igualdade de todos e todas diante de Deus, se levada a sério, se torna uma delas.

Fabrício Veliq é mestre e doutorando em teologia pela Faculdade Jesuíta de Belo Horizonte (FAJE), doutorando em teologia na Katholieke Universiteit Leuven - Bélgica, formado em matemática e graduando em filosofia pela UFMG. Membro do grupo de pesquisa Fundamental and Political Theology em KU Leuven. Ministra cursos de teologia no cursos de Teologia para Leigos do Colégio Santo Antônio, ligado à ordem Franciscana, no Centro de Formação e Cultura em Divinópolis e é também professor voluntário no CITEP na Faculdade Jesuíta de Belo Horizonte. É protestante e ama falar sobre teologia em suas diversas conversas por aí, tanto presenciais, como online. Seu blog, caso queiram conhecer mais de seus textos, é www.fveliq.blogspot.com. Seu e-mail, caso queiram entrar em contato, é fveliq@gmail.com .
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Pe. Geovane Saraiva

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