terça-feira, 7 de agosto de 2018

Escolhe a vida!

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Defender a vida em todas as suas instâncias necessariamente nos obriga lutar por estruturas públicas que assegurem satisfatoriamente o cuidado com a vida.
Não é tolerável o fato de que um grupo de pessoas esteja socialmente condenado a uma vida precária e constantemente ameaçada.
Não é tolerável o fato de que um grupo de pessoas esteja socialmente condenado a uma vida precária e constantemente ameaçada. (Reprodução/ Pixabay)
Por Tânia da Silva Mayer*

Os debates e os discursos supostamente em defesa da vida comoveriam nossos corações se vivêssemos realmente numa sociedade de fato preocupada com o ser humano. No entanto, assistimos covardemente as ações de um sistema financiado por todos nós que seleciona quem usufruirá da sua dignidade e quem terá essa dignidade furtada. No Brasil, a defesa da vida tem cor, credo e classe social. O resto é hipocrisia. Não é tolerável o fato de que um grupo de pessoas esteja socialmente condenado a uma vida precária e constantemente ameaçada. Defender a vida em todas as suas instâncias necessariamente nos obriga lutar por estruturas públicas que assegurem satisfatoriamente o cuidado com a vida.

Na semana passada, a senhora Luciene Ferreira Guedes, de 26 anos, deu à luz a um dos gêmeos dentro de um ônibus coletivo em Goiânia. O parto do outro bebê foi realizado no hospital porque a mulher foi conduzida por uma viatura do SAMU. Há pouco tempo antes desse acontecimento, ela esteve acompanhada do pai dos gêmeos em um hospital da cidade, tendo recebido alta mesmo em vias de entrar em trabalho de parto, para se dirigir a outro hospital onde poderia fazer um exame que precisava. Não deveriam ter sido conduzidos por uma ambulância? Não faltou atendimento para essa mulher? Não impediram que ela tivesse um parto assistido minimamente digno? Podemos falar em dignidade da vida quando a Luciene dá à luz no assoalho de um ônibus sem auxílio médico? Quem fará um vídeo ou lançará uma campanha nas redes sociais denunciado o fato das mulheres negras e pobres terem seus direitos negados nesse importante momento da vida de uma gestante? Quantos sinos serão badalados reivindicando melhores condições para as mulheres e seus filhos que são subjugados por um sistema desinteressado com as vidas negras, pobres e periféricas?

“Escolhe, pois, a vida!” (Dt 30,19) é a sabedoria ensinada e querida por Deus para o seu povo. Mas não se trata de uma escolha simplesmente entre a vida e a não vida. O Deus de Jesus nos ensina, no testemunho do Filho, que a escolha deve ser pela vida plena e abundante. Não há porque se contentar com a vida em situações precárias. Deus se gloria no ser humano que pode viver com dignidade. O cristianismo não deveria descansar ou se contentar com o conforto das suas belas Igrejas enquanto mulheres negras têm a vida violada, enquanto os pobres lotam as calçadas das ruas, enquanto a fome causa a desnutrição de milhares de crianças, enquanto o feminicídio é uma cruel realidade, entre tantas outras precariedades. Os cristãos e as cristãs devem, portanto, se comprometer com as lutas, grupos e movimentos que se empenham por políticas públicas preocupadas com estruturas sociais mais humanas que não impõem distinções quando o que está em jogo é a vida digna de milhares de pessoas excluídas.

*Tânia da Silva Mayer é mestra e bacharela em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE); graduanda em Letras pela UFMG. Escreve às terças-feiras. E-mail: taniamayer.palavra@gmail.com.

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