"Quem me dera ser leal, discreto e silencioso como minha sombra" (Dom Helder Câmara).

terça-feira, 1 de agosto de 2017

Usain Bolt é o maior atleta católico do mundo

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A ação de se benzer, de certa forma, é um convite para que o espectador transcenda o físico e entre nesse espaço espiritual onde a grandeza atlética é possível.
A equipe da Jamaica ganhou uma medalha de ouro com Usain Bolt na final masculina de revezamento 4X100 m nas Olimpíadas do  Rio de Janeiro, em 19 de agosto de 2016.
A equipe da Jamaica ganhou uma medalha de ouro com Usain Bolt na final masculina de revezamento 4X100 m nas Olimpíadas do  Rio de Janeiro, em 19 de agosto de 2016. (Henri Szwarc / Sipa USA)
Por Nick Ripatrazone

Rio de Janeiro, agosto de 2016. O nome de Usain Bolt é anunciado para as finais olímpicas de 100 metros. Ele sorri, dá de ombros e olha para a câmera. Ele parecia muito relaxado.

“Em suas marcas”. Bolt segura o dedo na boca para acalmar a multidão, ou talvez para acalmar a si mesmo. Ele avança. Olha para frente. Seu sorriso desaparece. Ergue os pés de volta nos blocos de partida e coloca suas mãos na pista. Com a cabeça baixa, uma Medalha Milagrosa pende de seu pescoço. Pés colocados nos blocos, põe-se de joelhos e olha para a linha de chegada.

Então, diante dos 35 milhões de espectadores que assistem esta corrida, Bolt faz o sinal da cruz, fechando os olhos enquanto passa a mão pelo peito. Ele ergue o dedo nos lábios e depois em direção ao céu, enquanto olha para cima. Seus olhos permanecem lá por um momento.

O sinal inicial dispara, e os corredores partem dos seus blocos. Como de costume, Bolt tem um início lento, mas aos 50 metros acelera na pista. A Medalha Milagrosa balança em seu pescoço como a marcação das batidas em um metrônomo. Ele queima a linha de chegada e começa a relaxar na frente da multidão. Ergue o joelho, abaixa a cabeça e faz o sinal da cruz novamente antes de ficar de pé.

Usain Bolt é o maior atleta católico do mundo. Possui recordes mundiais nos 100 e 200 metros. Ganhou oito medalhas de ouro olímpicas. Tornou-se uma lenda viva em um evento de trilha que é conhecido por criar superestrelas. Seus rituais pré e pós corrida são puramente católicos e, no entanto, a fé de um dos atletas mais famosos do mundo é um segredo aberto.

Nascido e criado em Sherwood Content, Jamaica, Bolt cresceu em uma casa adventista. Embora tenha frequentado a Igreja Adventista do Sétimo Dia durante a juventude, não se tornou um membro. Como católico, tomou o nome do meio de São Leão. Ele já falou sobre suas orações das noites antes de suas reuniões. É bastante aberto nas entrevistas sobre sua crença em Deus. O Vaticano convidou Bolt para falar na conferência TEDx Via della Conciliazione, conferência sobre a liberdade religiosa em 2013.

Bolt é um paradoxo. A confiança e a alegria da pista parecem contrastar com seus momentos de oração e contemplação. No entanto, a melhor maneira de entender a identidade de Bolt é reconhecer os traços inerentes dos velocistas. Seu treinador do ensino médio o chamou de "hiperativo". Ele era conhecido praticamente como um coringa. Ao contrário dos corredores de distância, que se estabelecem em um ritmo regular e quase meditativo, os velocistas devem canalizar o poder de um foguete. Os 100 metros são o teatro e Bolt é o melhor artista. Em tempo de atletismo, os 100 metros são um batimento cardíaco. Bolt cruza a linha de chegada bem abaixo de 10 segundos. As corridas de velocidade são eventos elétricos, acabam pouco depois de terem começado.

No futebol e no basquete, temos longos jogos e partidas para momentos exclusivos de brilho: a goleada perfeita ou a parada defensiva tornam-se a matéria para os destaques sem fim. Os 100 metros, ao contrário, são tudo ou nada. Não há tempo de inatividade, nem pausas. A metamorfose pré-corrida de Bolt é um reconhecimento tácito de que ele está prestes a entrar em outro domínio. A ação de se benzer, de certa forma, é um convite para que o espectador transcenda o físico e entre nesse espaço espiritual onde a grandeza atlética é possível.

Bolt falou sobre sua preguiça, sua falta de treinamento. Essas admissões da humanidade devem ser tomadas como pequenas confissões de humildade. Com toda sua coragem, Bolt sabe que seus dons atléticos devem ser cultivados. Ele é ao mesmo tempo um de nós e nada parecido conosco.

Bolt diz que vai se aposentar após o Campeonato Mundial de Atletismo da IAAF deste ano, que acontece de 04 a 13 de agosto, em Londres. Ele tentará ganhar seu quarto ouro consecutivo nos 100 metros lá, bem como seu quinto ouro consecutivo 4x100. Diz que quer se aposentar como campeão e quem pode culpá-lo? Os fãs viram sua jornada se desenrolar e sabem que os velocistas têm vida curta na pista.

Ao longo do caminho, um dos atletas mais famosos do mundo tornou-se um ícone católico oculto. Bolt recolhe a convergência entre esportes e fé: a crença de que podemos alcançar coisas incríveis e transcender nosso eu todos os dias, ou pelo menos viver através da transformação dos outros.

Será difícil imaginar os Jogos Olímpicos 2020 em Tóquio sem Bolt. Sua ausência será seu espetáculo, sua velocidade incrível, seu senso de desempenho, mas o mais importante será o seu testemunho. Aqui estava um atleta no topo de seu jogo (passado, presente e talvez futuro) que desacelerou o turbilhão de competição para louvar a Deus. Ele segurou o mundo do esporte nas mãos e com as mãos, ele apontou para cima. Que presente, para ele e para nós.


America

Tradução: Ramón Lara
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Pe. Geovane Saraiva

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