"Quem me dera ser leal, discreto e silencioso como minha sombra" (Dom Helder Câmara).

terça-feira, 1 de agosto de 2017

Aquíferos: reservas estratégicas de água que podem salvar a humanidade

domtotal.com
Falta maior interferência do governo brasileiro no sentido preservar mananciais de água de forma sustentável e que possibilite um maior desenvolvimento.
Aquífico na Flórida (EUA): maiores reservas podem suprir mais de 500 vezes a população mundial.
Aquífico na Flórida (EUA): maiores reservas podem suprir mais de 500 vezes a população mundial. (Florida Springs Institute/Reprodução)
Por Luiz Carlos Santos*

Existem vários tipos de águas que servem para utilização humana (consumo, higiene e lazer). As águas subterrâneas vêm mostrando sua grande importância e fragilidade devidas, principalmente, a sua dimensão, tempo de reposição e crescente utilização.

Água subterrânea é toda água que ocorre abaixo da superfície da terra, originárias de águas da chuva, que preenchem as fraturas das rochas sedimentares, falhas e fissuras das rochas compactas, formando aquíferos e exercendo uma função básica na conservação da umidade do solo, do fluxo dos rios e preservação de poços artesianos, lagos, nascentes, fontes, pântanos e brejos.

Quando essa água subterrânea encontra uma formação geológica com extenso volume de armazenamento acaba formando os aquíferos. Estes aquíferos são formados por rochas porosas e permeáveis que, por diferencial de pressão hidrostática, acabam garantindo a sua mobilidade e florescem nas partes de mais baixa altitude.

Os aquíferos podem ser divididos de acordo coma pressão do reservatório de água ou quanto à porosidade da rocha armazenadora. Em relação à pressão do reservatório derivam-se:

Livres ou freáticos, que são formados por rochas permeáveis, com baixa saturação de água, base impermeável ou semipermeável e topo com superfície livre sob pressão atmosférica. As chuvas alimentam estes aquíferos e determinam seus níveis; e
Confinados ou artesianos, como o próprio nome designa, possuem base e teto impermeáveis e são completamente saturados de água. Por essas características, possuem pressão hidrostática superior a pressão atmosférica e afloram sob alta pressão quando perfurados.

Por outro lado, a divisão em relação à porosidade da rocha armazenadora, os aquíferos estão divididos em:

Porosos, formados por rochas sedimentares consolidadas (detritos ligados) ou não consolidadas (detritos não ligados) e solos arenosos. É o tipo mais importante pois, aquíferos desse tipo apresentam grandes volumes de armazenamento e ocorrência em grandes áreas. Podem ser encontrados em bacias sedimentares e várzeas com sedimentos arenosos;
Fraturados ou fissurados, formados por rochas metamórficas e ígneas, sendo que a capacidade de armazenamento de água está relacionada com o número de fraturas da rochas e mobilidade da água entre elas; e
Cársticos (CaCO3), originam grandes rios subterrâneos devido a dissolução do carbonato pela água.
Dos 37 maiores aquíferos mundiais, apenas 8 se destacam pela sua transnacionalidade ou por possuírem alta capacidade de armazenamento, área de abrangência e profundidade média, sendo eles:

Alter do Chão, Amazônia, Brasil – ocupa uma área de 437.000 km2, nos estados do Pará, Amapá e Amazonas, com um volume de 86.400 km3;
Guarani, Região Sul, Brasil – possui uma área total de 1.200.000 km2abrangendo áreas da Argentina, do Brasil, do Paraguai e do Uruguai sendo 840.000 km2, ou 2/3 de sua área, situada entre os estados de Santa Catarina, Mato Grosso do Sul, Goiás, Minas Gerais, Rio Grande do Sul, Paraná e São Paulo. Possui uma capacidade volumétrica de 45.000 km3;
Arenito, Núbia – ocupa uma área de 2.000.000 de km2entre o Egito, Líbia, Chade e Sudão, possui uma capacidade de armazenamento de 150.000 km3. É o maior reservatório do mundo de água selada sem reposição pluvial;
Kalahari/karoo, África – possui uma extensão de 135.000 km2 compreendendo o África do Sul, Namíbia, Botsuana;
Digitalwaterwayvechte– com 7.500 km2 compreendendo as áreas da Alemanha e Holanda;
Praded – com 3.300 km2 abrangendo as áreas da República Checa e Polônia;
Grande Bacia Artesiana– Austrália com 1.700.000 km2; e
Bacia Murray – Austrália com 276.000 km2.
De certo, se for somado todo o volume de água desses 8 aquíferos, teríamos água para suprir mais de 500 vezes a população mundial. Outro fato notável, é o volume das águas subterrâneas em relação às águas superficiais, chegando a ser 100 vezes maior. Além disso, existe uma interrelação entre elas e ambas possuem uma conexão com o ciclo hidrológico e climatológico.

A utilização de água subterrâneas para abastecimento populacional, irrigação e agropecuária existe desde tempos antigos e sua reposição depende do índice pluviométrico da região, permeabilidade,tipo de rocha do solo e tempo de percolação. Com o grande crescimento populacional e desenvolvimento de técnicas mais avançadas de irrigação, a humanidade vem cada vez mais aumentando o consumo das águas subterrâneas e, consequentemente, poluindo-as. Nestas taxas, pesquisas recentes da NASA mostram que em, aproximadamente, 50 anos alguns aquíferos podem estar com suas capacidades esgotadas, uma vez que a quantidade de água retirada é superior à de reposição pluvial, demandando um tempo muito mais longo para reposição, estimado de décadas, para os mais superficiais, a milênios para os mais profundos.

Nos Estados Unidos, a utilização da água de reservatórios subterrâneos teve início após a grande seca,juntamente com as tempestades de areia (Dust Bowl) que ocorreram nas altas planícies (High Plains) nos anos de 1860. Após desenvolvimento de tecnologia para retirada da água mais profunda – irrigação por aspersão –iniciou-se a utilização da água do aquífero Ogallala, que cobre uma área de, aproximadamente, 450.000 km2, correspondendo a uma extensão de 8 estados norte americano. Esse reservatório, vêm sendo utilizado, principalmente, na irrigação de grandes plantações, atualmentede milho, e na agropecuária, atividades agrícolas que demandam grandes volumes de água.

No Brasil, o maior aquífero do mundo, o Alter do Chão, está com sua capacidade de abastecimento de água subutilizada pois, o Estado do Amazonas possui apenas 5% da população do País, e ele abastece apenas algumas cidades da região norte, Manaus e Santarém. Estudos vêm sendo realizados, pelas universidades da região norte, no sentido de utilização da capacidade desse aquífero para a produção de alimentos por irrigação, garantindo uma ampliação dos tipos de cultivos da região amazônica.

Outra pesquisa estratégica, seria a utilização dessas águas para irrigação de áreas da região nordeste e/ou auxiliar no abastecimento de água da região sudeste. Para tanto, projetos de grandes construções deveriam ser desenvolvidos para o transporte dessa água bem como a superação de algumas dificuldades visto que, poços profundos utilizam tecnologia complexa para retirada de água, semelhante a utilizada para extrair petróleo e, as distâncias Norte-Nordeste e Norte-Sudeste são muito grandes e possuem amplas diferenças de altitudes. Contudo, tratando o problema como um planejamento estratégico de produção agrícola e abastecimento de água e, tomando como exemplo as grandes construções –barragens, diques, aquedutos e etc.– feitas na região da Califórnia, nos Estados Unidos, na época da expansão agronômica, esse podeser um investimento viável a longo prazo.

Já o segundo maior aquífero do mundo, o Guarani, teve sua exploração iniciada em Ribeirão Preto como os primeiros poços perfurados em 1920, no Mosteiro de São Bento, e 1927, na Companhia de Cerveja Antarctica Níger S.A., muitas décadas antes do anúncio de sua descoberta, no ano de 1996. Atualmente, ele tem sido utilizado, juntamente com águas subterrâneas, para abastecer: 65% das cidades do estado de São Paulo (sendo a cidade de Ribeirão Preto totalmente abastecida por ele);o Estado do Mato Grosso do Sul, com 8 super poços ea região do triângulo mineiro (nas cidades de Cachoeira Dourada, Uberaba, Conceição das Alagoas e Frutal) com 15 poços tubulares profundos. Nesse sentido, a exploração das águas do aquífero se intensifica progressivamente com o crescimento das cidades,a escarces de água; as mudanças climáticas com diminuição dos índices pluviométricos e às aberturas de poços sem estudo prévio do impacto no volume do reservatório e na reposição da água.

Atualmente, muitas medidas têm sido tomadas para garantir a preservação do aquífero Guarani. Os quatro Países que detêm a propriedade do aquífero, Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai, visando o uso racional da água e a preservação do mesmo, estão desenvolvendo um Projeto de Proteção Ambiental e Desenvolvimento Sustentável. Outra ação é da Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania (CCJ) da Câmara dos Deputados que aprovou o texto do acordo sobre o Aquífero Guarani, firmado em San Juan, Argentina, em 2 de agosto de 2010. O tratado internacional tramita na forma do Projeto de Decreto Legislativo 262/15.O acordo tem o objetivo de articular ações entre Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai para a conservação e o aproveitamento sustentável dos recursos hídricos que compõem o Sistema Aquífero Guarani, o maior manancial de água doce subterrânea transfronteiriço do mundo.

Internacionalmente, grupos de ambientalistas da Argentina e Uruguai vêm proibindo a utilização de testes ‘sísmicos’ para detectar presença de xisto e possibilitar a exploração usando o fraturamento hidráulico, o 'Fraking', na região onde se localiza o Aquífero Guarani. O problema do fraking é que ele agride o meio ambiente pois é um processo que consiste na perfuração e injeção de fluidos químicos no solo provocando a fratura das rochas e liberando o gás natural. Entretanto, após a fratura das rochas, existe aspersão dos fluidos químicos no ar bem como infiltração nas águas subterrâneas.

Resta ainda, uma maior interferência do governo brasileiro no sentido de utilização desses mananciais de água de forma sustentável que possibilite um maior desenvolvimento urbano, tecnológico e agrícola dessas regiões.

* Prof. Dr Luiz Carlos Santos. Coordenador do Curso de Engenharia Química da Escola Superior de Engenharia de Minas Gerais – EMGE.
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Pe. Geovane Saraiva

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