"Quem me dera ser leal, discreto e silencioso como minha sombra" (Dom Helder Câmara).

sexta-feira, 28 de julho de 2017

A graça de ser velho

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Talvez um dos aprendizados que os mais velhos tentam transmitir seja o de que, dada a contingência da vida, devemos nos importar com o que é fundamental.
A graça da velhice está na vida vivida e transbordada.
A graça da velhice está na vida vivida e transbordada. (Divulgação Pixabay)
Por Gilmar Pereira
Equipe Dom Total

Ter muitos anos, isso é ser velho e nada mais. Encaremos a verdade de frente. O problema não está na idade acumulada, mas no que isso representa. Os muitos anos anunciam o fim. É certo que, como se diz popularmente, para morrer basta estar vivo. Contudo, à medida que o tempo avança e sobretudo quando se chega à velhice, a morte se descortina mais real e certa.

Certo filósofo já descrevera o humano como o 'ser-para-a-morte'. O fim põe em xeque o começo e o trajeto feito. No vislumbre da morte se faz a pergunta pelo sentido da vida, que também é submetida, nesse momento, à avaliação: o que fiz da vida? Precisamos de algo que justifique nossas escolhas e que responda às dores suportadas na existência. Essa experiência do derradeiro assusta e, para evitá-la, costuma-se buscar alguns anestésicos que impedem pensar sobre si. Por isso muita gente vive irrefletidamente, mergulhadada na busca do prazer. Outros, contudo, refugiam-se no legalismo e no cumprimento do dever - caso algo dê errado a culpa não seria deles, mas da sociedade ou da religião que impôs as normas.

Outra maneira de fugir da velhice é atrasá-la. Quer-se ser eternamente jovem porque não se quer ver o fim, não se quer assumir a finitude da existência. Entretanto, os sinais de degradação do corpo vão surgindo, os olhos já não enxergam como antes, os movimentos estão lentos, a pele fica toda sulcada, a audição prejudicada, o processamento de informações novas um pouco mais lento. Com os avanços da ciência a qualidade de vida do idoso melhorou muito e se pode sentir menos os efeitos da idade. Mas, cedo ou tarde, o cansaço chega e mesmo as atividades que até então eram cotidianas precisam cessar. No momento que a utilidade declina, o sentido deixa de estar no que se faz e a questão sobre o ser retorna.

A importância de alguém não está no que se faz, mas em quem se é. Todavia, isso só se aprende pela experiência, dada através dos anos (embora alguém possa viver muitos anos sem adquirir a experiência do vivido). Talvez esse seja um dos aprendizados que os mais velhos tentam transmitir, que a vida tem sentido em si mesma e que, dada a sua contingência, devemos nos importar com aquilo que lhe é fundamental. Às vezes se leva algumas coisas a ferro e fogo que poderiam ser relativizadas ou se despreza aquilo que deveria importar. Os que já caminharam muito sabem que não podem andar por outros, já que cada qual vai por sendas diferentes, mas podem indicar os distintos modos de se fazer um caminho e como ler os sinais que nele aparecem.

Talvez por isso, pela vida ter sentido em si, seu transbordamento encha o coração de alegria. De fato, na antiguidade, em grupos que não aventavam uma vida após a morte como a entendemos hoje, cria-se que o sentido da vida estava na continuidade deixada. E mais, este não estava nela sozinha, mas era encontrado no grupo. O homem se apercebia com sentido quando seu clã continuava e cada vida que surgia era celebrado. Aí se destacava o lugar do ancião, como aquele que faz parte da origem de um grupo, um gerador de vida, que ia sendo propagada como um eco, ampliando, de pai para filho, de filho para neto, de neto para bisneto...

Costuma-se dizer que os avós são pais e mães duas vezes. A parternidade ou maternidade dobrada significa graça porque o ancião se identifica com aquele que é fonte de toda a vida. Não só, sua vida se torna escritura onde se leem as ações de Deus e que pode constituir um apoio para a jornada que as gerações futuras irão traçar. Tal paternidade ou maternidade não implicam, necessariamente, que alguém tenha gerado filhos biológicos, porque a fecundidade de uma vida se mostra de distintas formas, tanto que há idosos que acabam sendo chamados de avós por quem nem tem algum laço de parentesco. A graça da velhice está na vida vivida e transbordada.

Fé e ancianidade

No primeiro texto, A natureza esperou pela graça, Pe. Danilo César parte das figuras de São Joaquim e Santa Ana, avós de Jesus, para falar sobre a figura dos avós, de modo que possa se ver neles um pouco desses santos.

A relação de respeito que se deve ter para com os avós e para com os idosos é evocada no texto Honra teu pai e tua mãe, de Junior Vasconcelos do Amaral. Ali o autor amplia o sentido do quarto mandamento para os que são pais duas vezes.

Por fim, Felipe Magalhães Francisco lança um olhar poético sobre a experiência da velhice, tida tantas vezes como algo que se deve evitar, no texto Envelhecer com qualidade: a velhice como poesia.

Boa leitura!
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Pe. Geovane Saraiva

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