"Quem me dera ser leal, discreto e silencioso como minha sombra" (Dom Helder Câmara).

segunda-feira, 1 de maio de 2017

Missão e diálogo inter-religioso: uma conversa necessária

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O cristão que se dedica a pensar e viver a sua fé na perspectiva do diálogo inter-religioso, precisa discernir a própria postura missionária.
Pastor Joide Pinto Miranda dá seu testemunho na Comissão de Direitos Humanos sobre sua suposta ex-homossexualidade.
Pastor Joide Pinto Miranda dá seu testemunho na Comissão de Direitos Humanos sobre sua suposta ex-homossexualidade. (Alex Ferreira / Câmara dos Deputados)

Por Felipe Magalhães Francisco*

Uma das questões que surgem, quando se está inserido no contexto de buscar compreender e vivenciar o diálogo inter-religioso, é sobre o lugar da missão. O cristianismo, desde os inícios, cresceu em caráter proselitista, isto é, o anúncio que fazia, tinha por objetivo aumentar o número de seguidores de Jesus Cristo e, logo, o número de fiéis nas fileiras cristãs. Ainda hoje essa prática se faz ver: basta que paremos para ouvir os apaixonados discursos nas muitas igrejas cristãs, ônibus e praças públicas.

A própria história do catolicismo brasileiro é sinal disso: missionários vinham da Europa, catequizar os índios e fazê-los aptos à salvação, por meio do batismo. Negros escravizados também eram catequizados e proibidos de vivenciarem sua própria fé ancestral, o que os levou a uma incrível força criativa de reelaboração da própria experiência de fé – à qual estavam ligados existencialmente – aliada à fé imposta por seus senhores e catequizadores. Impressionante é perceber como essa postura europeia continua em vigor, agora com menos força no catolicismo, mas bastante viva entre os membros das igrejas evangélicas.

Ora, o cristão e a cristã, que se dedica a pensar e viver a sua fé na perspectiva do diálogo inter-religioso, precisa discernir a própria postura missionária – e mais que isso, a postura proselitista – que tem configurado a prática religiosa cristã há dois milênios. A questão de fundo, aqui, é: se, numa postural dialogal honesta, reconhece-se que em todas as religiões há algo de irredutível, isto é, de específico que não se encontra em outra tradição religiosa e que, também por isso,  ela tem legitimidade salvífica, qual o lugar da missão à qual Jesus nos enviou?

A tentativa de resposta à essa importante questão aponta para outra problemática: o que se entende por missão. Tão logo, compreendemos, em nossa perspectiva, a missão não como proselitismo, mas como anúncio de Deus, que é amor e que a todos quer salvar. Note-se, nesse caso, que salvação não significa integração a uma tradição religiosa, mas abertura à graça divina que se oferece a toda criação. Faz experiência de salvação aqueles que, na liberdade, buscam realizar-se humanamente, abertos à graça invisível que atua no mundo criado.

Fazer missão, para os que querem cumprir o mandato de Jesus, é anunciar que essa plena realização da humanidade, na comunhão com Deus, é o que temos chamado de Reino de Deus. Esse Reino, todavia, não é nunca anunciado num deserto, no qual inexista a revelação de Deus: esse Mistério está, indiscutivelmente, revelando-se em todos os rincões da criação. A missão, nesse sentido, é um encontro com outras manifestações do Mistério divino: não é só em nossa própria comunidade de fé que podemos perceber os sinais do Reino de Deus, mas, ao contrário, em contato com outras tradições, podemos perceber aqueles sinais que estão escondidos e misteriosos em nosa própria tradição. Fazer missão é, pois, descobrir o Reino, presente para além de nossos muros instituicionais.

*Felipe Magalhães Francisco é doutorando em Ciências da Religião, pela PUC-MG, e mestre e bacharel em Teologia, pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia. Coordena a Comissão Arquidiocesana de Publicações, da Arquidiocese de Belo Horizonte. Articula a Editoria de Religião deste portal. É autor do livro de poemas Imprevisto (Penalux, 2015). Escreve ás segundas-feiras. E-mail: felipe.mfrancisco.teologia@gmail.com.
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Pe. Geovane Saraiva

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