"Quem me dera ser leal, discreto e silencioso como minha sombra" (Dom Helder Câmara).

segunda-feira, 3 de abril de 2017

Quando sair é voltar a si próprio: as riquezas de viajar

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Viajar provoca, quase sempre, revelações porque o diferente é o que nos faz enxergar melhor a si próprio. O que não sou eu é, portanto, o que define o que somos.
Viagens são momentos em que as novidades nos encantam e nos marcam.
Viagens são momentos em que as novidades nos encantam e nos marcam. (Pixabay)
Por Pablo Pires Fernandes

Descobri que o verbo sair tem 36 definições no Dicionário Houais e 29 no Aurélio. Consultei para verificar as diferenças de sentido do termo. A quantidade me surpreendeu. À medida que lia, constatava que não nos damos conta da variedade semântica que usamos corriqueiramente. E que compreendemos quando alguém diz “ele se saiu bem na prova”, “ele saiu da cidade”, ou “a menina saiu à mãe” e “a fotografia saiu no jornal” etc. com absoluta naturalidade.

Dicionários sempre me proporcionam descobertas prazerosas, sou devoto diário deles. Estava procurando o sentido de “sair de si” para saber se não se resumia a perder a cabeça ou o juízo, algo que não ditava um viés racionalista e cartesiano. Não encontrei exatamente o que buscava.

Diferenças de significado das palavras são sutis, mas fundamentais. A definição que idealizei, naquele momento, era um tipo de deslocamento. De se colocar no lugar do outro, como um estrangeiro que não compreende as tantas variações de sentido, em português, da palavra sair. Pensava em algo como deixar seu próprio lugar, físico, mas também mental, numa espécie de deambulação.

Descobertas, na maioria das vezes, dependem desse tipo de estado de espírito, de estar aberto para as diferenças. E viajar provoca, quase sempre, revelações porque o diferente é o que nos faz enxergar melhor a si próprio. O que não sou eu é, portanto, o que define o que somos.

Daí que o ato de viajar é tão rico. O encontro com outras culturas, costumes e lugares são uma espécie de superexposição às diferenças. É por isso que são experiências tão constitutivas. São momentos em que as novidades nos encantam e nos marcam. Mas esse descortinar de experiências – muitas vezes guardadas com incrível vivacidade na memória – depende de doses de disponibilidade.

Distantes de nossos hábitos, a possibilidade de deixarmos de lado os condicionamentos e nos permitirmos o “sair de si” ao qual me referia. Lembrei-me então do amigo Jeff Santos, caminhante que fez sozinho o caminho da Estrada Real. Agora, ele se prepara para fazer o Appalachian Trail, nos Estados Unidos. O que leva uma pessoa a fazer um percurso de cinco meses, enfrentando frio, chuva e intempéries de todo tipo? É o caminhar em si e o que isso pode nos possibilitar de nos conhecermos melhor.

Despir-se de seu próprio sujeito, por mais paradoxal que pareça, é necessário de encontrar consigo mesmo. A ideia é a de que é preciso sair, de se deslocar para retornar à mesma casa e que é o percurso que faz desta casa uma morada melhor, mais sua. Embora a mesma, diferente.
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Pe. Geovane Saraiva

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