"Quem me dera ser leal, discreto e silencioso como minha sombra" (Dom Helder Câmara).

segunda-feira, 17 de abril de 2017

Pode o Islã aprender de Jesus e do Papa Francisco?

domtotal.com
Escritor islâmico sugere que uma consideração mais séria da pessoa de Jesus por parte dos muçulmanos poderia dar passos para vivermos juntos num mundo em paz.
Papa cumprimenta o presidente do Conselho Muçulmano do Cáucaso.
Papa cumprimenta o presidente do Conselho Muçulmano do Cáucaso.
 (L'Osservatore Romano/Pool Foto via AP)
Por Kathryn Jean Lopez*

“Jesus apontou os muitos problemas que nos preocupam hoje e consagrou uma sabedoria profética que cabe perfeitamente no nosso tempo”, escreveu Mustafa Akoyl, jornalista muçulmano da Turquia, recentemente no New York Times. Considerado um profeta no Islã, Akoyl sugeriu no seu livro: O Jesus Islâmico: Como o rei dos judeus se tornou um profeta dos muçulmanos, que os muçulmanos olhassem mais perto a Jesus no Alcorão para uma abordagem mais pacífica das visões conflitivas no Islã. Akoyl, visitante sênior no Projeto Liberdade do Wellesley College, fala sobre a ideia e o livro com Kathryn Jean Lopez.
Lopez: O que é o círculo vicioso “entre secularismo ocidental muçulmano e seus rivais nativos”?

Akoyl: É o círculo vicioso da ditadura. No Meio Oriente, o Estado é um leviatã com poderes ilimitados e guerras entre grupos rivais em que cada grupo quer o controle desse Estado. (Parecido com Guerra dos Tronos, se você assiste o seriado!) Quando o poder secular toma posse, eles comumente oprimem os grupos islâmicos. Quando os grupos islâmicos chegam ao poder, eles se tornam os novos ditadores, oprimindo seus rivais e impondo seus valores.

Irã é um bom exemplo. Os dois subsequentes Shahs no século XX foram ditadores seculares. O primeiro, Reza Shah (1925-41) até proibiu as mulheres de usarem o véu islâmico. Quando Ayatollah Khomeini derrubou seu filho, Mohammad Reza Pahlavi, o véu começou a ser obrigatório por lei. A sociedade iraniana, em outras palavras, nunca experimentou a liberdade. Ela oscila de uma forma de autoritarismo a outra.

Eu esperava que nós finalmente quebrássemos o círculo vicioso na Turquia. Contudo, nos últimos anos, eu me desiludi dessa esperança. Agora eu vejo a luz em Tunísia.

“Filho de Deus” é um dos pontos mais problemáticos. Porém, ele não precisa ser tão problemático como tem sido? Não será isto outro mal entendido?

Isto é um dos pontos mais problemáticos que encontros entre cristãos e muçulmanos sobre o qual eu gostaria de refletir.  Comumente os muçulmanos entendem o termo “filho de Deus” como algo escandaloso, porque é condenado no Alcorão como uma ofensa a Deus. Quando olhamos cuidadosamente os versos mais relevantes do Alcorão, encontramos uma nuança.  Os versos que condenam “aqueles que falam que Deus tem um filho” usam a palavra em árabe walad, que significa filho biológico, em vez de usar ibn, que significa filho metaforicamente. O que o Alcorão denuncia, em outras palavras, é a ideia de que Deus gerou um filho através de relações sexuais.

Quando olhamos no contexto do Alcorão, isto faz sentido. Os árabes pagãos, como os gregos pagãos, acreditavam em deidades carnais que tinham filhos, filhas e esposas. O Alcorão parece condenar estas crenças, mais do que condenar a fé cristã, na qual Jesus é o filho de Deus, falando de maneira metafórica, não biológica. Alguns poucos académicos muçulmanos medievais perceberam esta nuança, que foi depois esquecida.

Quem é Muhammad Abduh? Pode sua observação realmente ser incendiária?

Muhammad Abduh foi um académico muçulmano egípcio da segunda metade do século XIX pioneiro do que hoje chamamos “Modernismo Islâmico”. Ele admirava as conquistas que viu na Europa, criticava o dogmatismo e rigidez que viu na tradição islâmica e defendeu a reforma islâmica. Os muçulmanos reformistas ainda o respeitavam, enquanto os ultraconservadores o achavam um herético. Para mim, ele é também um crítico, porque para a reforma que ele queria iniciar no Islã, ele apontou Jesus como a fonte de inspiração. Jesus chamou aos judeus daquele tempo para olharem o propósito moral da lei, antes do que a literalidade. Abduh escreveu algo que os muçulmanos precisam ouvir hoje.

Num ponto do livro, sugere-se: “Diferentes tradições religiosas devem ‘competir umas com outras em fazer o bem’ enquanto continuem discordando sobre suas diferenças, continuam adiando o juízo final de Deus, que acontecerá após a morte”. O que isso significa para a evangelização/proselitismo? Devemos nos livrar de fazer o convite?

Claro que devemos ser livres de fazer o convite (isso faz parte da liberdade religiosa). Porém, teologicamente falando, devemos evangelizar com a ideia de que só nossa fé representa a verdade e as outras tradições estão na falsidade absoluta?

Minha resposta é: não. Encontro uma melhor resposta numa máxima do grande académico islâmico turco-curdo Said Nursi (m. 1960) quem falou de diferentes grupos dentro do Islã: “Podemos dizer, nossa escola é a melhor”, escreveu ele, “Mas não podemos dizer é a única boa”. Eu estendo isso às religiões. Nós todos podemos acreditar que a verdade brilha nas nossas religiões mais do que em outras, porém, não deveríamos pensar que os outros estão na escuridão.

Quantas pessoas existem com a ideia do Islã tomar mais seriamente a figura de Jesus, especialmente entre clérigos e acadêmicos com poder?

Por um lado, Jesus é altamente respeitado por muçulmanos, por ser venerado no Alcorão. Por outro lado, a maioria dos muçulmanos não conhecem os ensinamentos de Jesus. A novidade no meu livro é chamar aos meus companheiros muçulmanos a aprender esses ensinamentos lendo os Evangelhos do Novo Testamento.

Isto é uma heresia? Não, porque o Alcorão reza com os evangelhos e se refere a eles. Não parece então tão inverossímil que alguns acadêmicos muçulmanos no passado se aproximassem ao estudo de Jesus lendo o Novo Testamento. Contudo, é uma aproximação incomum. Eu estou tentando popularizá-la.

Falamos de Jesus e a misericórdia. O Papa Francisco enfatizou a misericórdia para o mundo todo. Sentimos uma afinidade neste esforço dele?

Eu sinto que sim. Honestamente eu gosto do Papa Francisco e seu esforço em fazer a Igreja Católica mais aberta e acolhedora. Também sei que os conservadores discutem em contra disto: Se nos fazemos muito liberais, perderemos a essência e tal vez também o charme distintivo. Mas o perigo oposto é ser muito rígido e afastar as pessoas da fé.

No Islã nos sentimos seguros do lado mais rígido deste espectro hoje. Nos não deveríamos perder, senão ganhar, através do acolhimento de teologias mais liberais, inclusive de uma jurisprudência mais liberal. Enfim, desejo que nós tenhamos mais líderes no mundo islâmico como o Papa Francisco.

Tradução: Ramón Lara


Crux
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Pe. Geovane Saraiva

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