"Quem me dera ser leal, discreto e silencioso como minha sombra" (Dom Helder Câmara).

sexta-feira, 28 de abril de 2017

A pedagogia da cruz

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Só pode ser realmente seguidor de Jesus, o Messias servo sofredor, aquele que aprende da cruz a doação e o serviço gratuito aos outros.
A catequese de Jesus não se dá no banco de uma escola, e sim, no caminho da cruz.
A catequese de Jesus não se dá no banco de uma escola, e sim, no caminho da cruz. (Divulgação)
Por Rodrigo Ferreira da Costa,SDN*

Jesus não quis ser um missionário solitário. Desde o início do seu ministério público, ele escolheu homens e mulheres para que ficassem com Ele, experimentassem o seu jeito de ser, compartilhassem de sua ação missionária, a fim de que os mesmos fossem por Ele enviados a pregar a novidade do Reino de Deus (cf. Mc 3, 13-14).

Ficar com Jesus e sair a pregar. Eis a dinâmica fundamental da catequese de Jesus presente no evangelho segundo Marcos. Não são dois momentos distintos, no qual o catequizando possa optar por um e abandonar o outro, nem tampouco, fazer um primeiro e depois o outro. O discípulo chamado à convivência com o Mestre, precisa estar pronto para sair em missão, do mesmo modo que, aquele que sai em missão, precisa estar sempre ligado à pessoa e vida do seu Senhor.

Na pedagogia catequética de Jesus aparece sempre este duplo movimento: discipulado e missão. Oração e trabalho. Mística missionária. Por isso a sua catequese não se dá no banco de uma escola, e sim, no caminho da cruz. Não se faz uma catequese isolada, mas em comunidade. Numa relação de amizade, entre irmãos. Discípulos missionários, eis o eixo principal da catequese de Jesus. Pois, “sem momentos prolongados de adoração, de encontro orante com a Palavra, de diálogo sincero com o Senhor, as tarefas facilmente se esvaziam de significado, quebrantamo-nos com o cansaço e as dificuldades, e o ardor apaga-se. Ao mesmo tempo, há que rejeitar a tentação de uma espiritualidade intimista e individualista, que dificilmente se coaduna com as exigências da caridade, com a lógica da Encarnação” (Papa Francisco. EG, 262).

O grande desafio encontrado por Jesus na formação dos seus discípulos foi a tentação humana de querermos ser mestres. Na escola de Jesus não há lugar para o “carreirismo”. Os discípulos sempre serão discípulos, mesmo após serem enviados a pregar. Por isso Jesus terá na pedagogia da cruz o grande farol de todo o seu ensinamento. Só pode ser realmente seguidor de Jesus, o Messias servo sofredor, aquele que aprende da cruz a doação e o serviço gratuito aos outros. Somente ao pé da cruz, podemos reconhecer que “este homem [Jesus] era verdadeiramente o Filho de Deus” (Mc 15,39). Como afirma o Papa Francisco, "quando caminhamos sem a Cruz, construímos sem a Cruz ou confessamos um Cristo sem a Cruz, não somos discípulos do Senhor: somos mundanos, somos bispos, padres, cardeais, papas, mas não discípulos do Senhor”.

Neste sentido, a catequese de Jesus não estava pautada em doutrinas ou teorias sobre Deus. Nem tampouco num catálogo de regras e leis desvinculadas da vida do discípulo. Sua catequese falava da vida. Do cotidiano da vida do povo e do mistério de Deus escondido em nós. Jesus ensinava com palavras e gestos. E os seus discípulos aprendiam ouvindo, vendo as ações de Jesus em favor dos outros, mas aprendiam também fazendo, participando ativamente da missão do Mestre.  Por exemplo, numa tarde de deserto, enquanto Jesus ensinava sobre o valor da partilha, ele desafia os seus discípulos a darem de comer àquela multidão, ensinando-os na prática, o valor da solidariedade (cf. Mc 6, 30-42). Jesus fala do poder serviçal, e Ele mesmo se coloca como o grande servidor da humanidade: “o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos” (Mc 10, 45). Certamente quando os seus discípulos viveram a experiência traumática da morte na cruz do seu Mestre, essas palavras de Jesus foram sendo compreendidas com muito mais nitidez. Pois a cruz concretiza todo o seu ensinamento.

Chamou-os para que ficassem com Ele e para enviá-los a pregar com autoridade (cf. Mc 3,13). Jesus é um catequista que confia responsabilidades aos seus catequizandos. Ele dá aos discípulos a mesma autoridade (exousia) que recebeu do Pai (cf. Mc 1, 9-11). O envio missionário, no entanto, não significa superação da etapa formativa. O enviado aprende com a missão. Quando a realiza com sucesso, o Mestre ensina a não se prender aos aplausos: “Vamos a outros lugares, às aldeias da vizinhança, a fim de pregar também ali, pois foi para isso que eu saí” (Mc 1, 38); e quando algo não dá certo, o Mestre retoma a conversa e mostra-lhes que sozinhos eles não poderão enfrentar os desafios da missão (cf. Mc 9, 14-29).

Olhando a pedagogia catequética de Jesus apresentada por Marcos, percebemos que Jesus se preocupava em formar o coração dos seus discípulos a partir da vida, a fim de que aqueles simples pescadores pudessem compreender o mistério do Reino revelado em Cristo Jesus e fossem seus anunciadores para o mundo. Pois, para Jesus, não basta saber quem é Deus e quais são os seus decretos. Ele quer que o seu discípulo expresse na vida o Deus que este acredita. Desta forma, podemos afirmar que a cruz é o grande livro da catequese de Jesus, do qual desabrocha todo o seu ensinamento.

Percebe-se que o messianismo de Jesus ainda continua mal compreendido por muitos que se dizem cristãos. A busca por um Messias triunfalista, milagreiro, cheio de glória e poder é constante em nossos dias. Marcos apresenta Jesus como um Messias servidor, empenhado na realização do Reino de Deus. Nem mesmo os discípulos de Jesus compreenderam o seu messianismo, por isso o abandonaram na hora da cruz. As autoridades sentiram-se desafiadas. Os poderes religioso e político o julgaram falsamente e o condenaram à morte. Mas o Filho do Homem que sofreu e deu a vida por amor foi confirmado na sua missão pelo Pai.

Novamente precisamos voltar a nossa atenção para a pedagogia catequética de Jesus. Primeiro, porque ela nos desafia a fazermos também uma catequese mais próxima e “em saída”. Uma catequese menos escolar e mais inserida na vida e na realidade concreta das nossas comunidades cristãs. Outro aspecto importante é a sua dinâmica discipular. Nossa missão enquanto catequistas é formar discípulos missionários do Reino, e não apenas transmitir um amontoado de doutrinas e decretos, muitas vezes, desvinculados da vida de nossos catequizandos.

Oxalá as nossas comunidades fossem esse espaço de convivência e fraternidade, no qual, cada um que chega se sentisse acolhido como irmão e irmã, e, a partir da experiência de fé vivida em comunidade, pudesse se tornar também um evangelizador, comprometido com a causa do reino. Pois somente uma catequese que ajuda os catequizandos a tocarem a carne sofredora de Cristo nos pobres e sofredores, que inicia os catequizandos na pedagogia da cruz, poderá formar verdadeiros discípulos missionários do reino.

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*Pe. Rodrigo Ferreira da Costa, SDN, Missionário Sacramentino de Nossa Senhora, Licenciado em Filosofia (ISTA), bacharel em teologia (FAJE), com Especialização para Formadores em Seminários e Casas de Formação (Faculdade Dehoniana). Publicou pela Editora O Lutador (2015) o livro “Equipes Missionárias: rosto de uma Igreja em missão”. Trabalha atualmente na Paróquia Santa Cruz, Alta Floresta-MT.
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Pe. Geovane Saraiva

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