"Quem me dera ser leal, discreto e silencioso como minha sombra" (Dom Helder Câmara).

sexta-feira, 24 de março de 2017

Cristianismo e homossexualidade

 domtotal.com
Obsessão do cristianismo com questões morais, sobretudo no que tange o sexual, têm imposto um desfio para a relação da teologia e da pastoral para com a homossexualidade.
Igreja, ocupada com a defesa da vida, não pode se esquecer das mortes LGBTs. (Divulgação)

Por Felipe Magalhães Francisco*

Do ponto de vista religioso, os campos mais “legislados” dizem respeito às duas fontes de entrada para o prazer humano, a saber, a alimentação e a dimensão sexual-erótica. Giram em torno desses dois eixos as maiores observâncias religiosas. Um exemplo claro disso é o conjunto de leis do Antigo Testamento, contrato da Aliança selado entre Deus e o povo. Essa legislação nasce, em grande parte, com o propósito de normatizar as relações, criando sentido para elas.

A tentação, bem sabemos, é que essa legislação se torne mecanismo de controle sobre os fiéis, por parte das lideranças religiosas. É o caminho que o cristianismo institucional adotou, em seu processo de formalização de seu caráter religioso. Tudo isso é um processo que levou o cristianismo a se revestir de outra roupagem, que não a das origens, dado que a ação de Jesus no mundo não era, de modo algum, moralizadora.

Grosso modo, esse processo explica a insistência quase que obsessiva do cristianismo institucionalizado com as questões morais, sobretudo naquilo que tange o sexual. Quando o assunto entra no campo da homossexualidade, então, ganha contornos bastante complicados, no que diz respeito à teologia e, mais que isso, à pastoral. Vale ressaltar que a homossexualidade é apenas um aspecto da complexa e vasta dimensão da diversidade sexual. Mas, se o cristianismo mal dá conta de lidar com a questão da homossexualidade, amplamente vivida, de modo inaudito, no meio eclesiástico, quiçá poderá oferecer, ainda, uma palavra honesta e amadurecida sobre outros aspectos dessa discussão.

É certo, porém, que a discussão já alcança alguns setores eclesiais, tanto católicos quanto protestantes e evangélicos, ainda que não institucionalmente. E é justamente sobre isso que queremos nos debruçar nesta matéria especial, que delimita a discussão abordando, a princípio, a dimensão da homossexualidade, tal como veremos nos textos que compõem nossa matéria. O cristianismo, ocupado em defender a dignidade da vida, não pode deixar de dar uma palavra responsável a respeito dessa questão, que, por preconceito e ódio, leva milhares de pessoas à morte, de forma cruel e desumana todos os dias.

O primeiro artigo, proposto pela teóloga Tânia Mayer, Homossexualidade e catolicismo, faz uma leitura crítica sobre o modo como o Catecismo da Igreja Católica aborda a questão da homossexualidade. Dialogando com a tematização feita pelo Catecismo, a autora chama a atenção para contradições internas, revelando que é preciso avançar na discussão, para uma melhor compreensão sobre a homossexualidade, abrindo novas possibilidades teológicas e pastorais.

O modo como a instituição religiosa lida com a questão da homossexualidade contribui, em grande parte, para a manutenção do sofrimento e do anonimato de muitos homens e mulheres, que divergem da sexualidade heteronormativa. É o que nos ajuda a compreender o artigo Os homossexuais, a família e a igreja, da psicanalista Edith Modesto. Trazendo para o debate casos reais de sofrimento e de conflitos, a autora nos ajuda a pensar sobre a importância de as igrejas cristãs ajudarem as famílias a melhor lidarem com a dimensão das sexualidades diversas.

Fechando nossa matéria especial, o artigo Diversidade sexual: um dom?, do teólogo Luiz Corrêa Lima, propõe uma leitura da relação do cristianismo com a questão da diversidade sexual, chegando ao atual Magistério do Papa Francisco. Agora, abandonando a discussão do ponto de vista exclusivamente moral, a pastoral de Francisco adota uma postura positiva no diálogo, sinalizada, entre outras coisas, pela acolhida feita pelo Papa ao transexual espanhol Diego Neria.

Boa leitura!

*Felipe Magalhães Francisco é doutorando em Ciências da Religião, pela PUC-MG, e mestre e bacharel em Teologia, pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia. Coordena a Comissão Arquidiocesana de Publicações, da Arquidiocese de Belo Horizonte. Articula a Editoria de Religião deste portal. É autor do livro de poemas Imprevisto (Penalux, 2015).
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Pe. Geovane Saraiva

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