sexta-feira, 17 de março de 2017

As interpelações quaresmais e a experiência da vida nova

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Proposta quaresmal de retiro consiste em interromper o ritmo cotidiano para retirar-se da agitação desenfreada que nos envolve e transborda em nós.
Ser batizado é fazer experiência da morte para, com Cristo, encontrar a vida nova nele.
Ser batizado é fazer experiência da morte para, com Cristo, encontrar a vida nova nele. (Divulgação)
Por Lorena Alves Silveira*

Dizer sobre o cansaço e o stress da sociedade em que estamos inseridos já é um clichê. Continuamente somos bombardeados por uma série de informações de todos os tipos possíveis. Ao mesmo tempo, recebemos, através das redes sociais, inúmeras mensagens nos alertando sobre a importância de parar um pouco, refletir sobre a vida, reorganizar as prioridades, redescobrir e se importar com o que realmente é essencial.

Interromper o ritmo cotidiano para retirar-se da agitação desenfreada que nos envolve e transborda em nós, nunca foi tão necessário. Essa é a proposta quaresmal: um grande retiro! Retiro que não está atrelado ao espaço físico, ao silêncio meramente exterior, ao estar só. O desafio é justamente este: retirar-se estando em meio à efervescência urbana, cercado por pessoas, bombardeado por sons e imagens, permeado por conflitos internos, caos social, econômico e cultural.

Lançado o desafio, eis pergunta fundamental: retirar-se para quê? E é aí que costumamos nos perder... Se perguntarmos à muitas pessoas de nosso convívio o que as vêm em mente quando se diz "quaresma", muitas irão nos responder "sacrifício", "penitência", “sofrimento”. A quaresma, não raramente, nos coloca em contato com pessoas que, nesse período, se dispõem à algum tipo de "sacrifício", se abstendo de carnes, guloseimas, bebidas alcóolicas. Muitas vezes, atos vazios de sentido e perdidos neles mesmos.

Se retomarmos às fontes desse tempo litúrgico, veremos que a quaresma surge como oportunidade para os catecúmenos se prepararem mais intensamente para receber o batismo na celebração anual da Páscoa do Senhor, a Vigília Pascal. Essa experiência catecumenal é estendida a todos os já batizados, que na Noite Santa do Senhor irão renovar suas promessas batismais.

Voltemos para a pergunta fundamental: retirar-se para quê? Para revermos nossa vida a partir da experiência com o Ressuscitado e, alimentados por ela, renovarmos os compromissos assumidos em nosso batismo.

Todo acordo, contrato, combinação, carece de ser revisitado, para que nos recordemos de nossas motivações e tenhamos a possibilidade de avaliar a coerência de nosso caminhar. Assim, o período quaresmal deve ser um movimento de retirar-se da superfície de nós mesmos e irmos a fundo.

As perguntas a serem respondidas por todos os batizados durante a Vigília Pascal são um bom fio condutor para nossa reflexão nesses 40 dias. Para vivermos na liberdade dos filhos e filhas de Deus, para vivermos como irmãos e irmãs, renunciamos a todo o pecado, a tudo o que pode nos desunir? Cremos no Pai, Filho, e Espírito, que são amor, relação, fonte de vida?

Perguntas genéricas que encontram inúmeras possibilidades no particular de nosso viver. Pessoalmente e em comunidade, podemos nos colocar ao encontro dessas respostas. Afinal, em que Deus a nossa fé está fundamentada? Cremos na misericórdia, no amor, nas relações? Quais são meus valores fundamentais a partir de minha crença? Sou capaz de renunciar a tudo o que é contrário ao Reino?

Conduzidos por estes questionamentos, somos convidados aos três pilares desse tempo litúrgico, recebidos da fé judaica: a oração, o jejum, e a esmola. Essas práticas certamente nos auxiliam na busca pela coerência em nossos compromissos batismais, tão exigentes e fundamentais para o cristão.

Se colocar na dinâmica de diálogo com o Senhor, ouvir o que Ele nos ensina a partir do seu Evangelho, percebê-lo no grito ou silêncio do pobre, daqueles que estão às margens. É na oração que conhecemos a Deus, mas na oração verdadeira, sensível ao Senhor que se comunica através da vida. Conhecendo-o e atraídos pelo seu amor, somos capazes de entregá-lo nossas misérias mais profundas, nossas reais necessidades, nosso canto de louvor e gratidão.

A partir desse encontro amoroso, que é a oração, estamos aptos para reconhecer o outro em suas carências e alimentá-lo a partir de nossas renúncias, como irmãos e irmãs que somos. A esmola nada mais é do que o fruto do nosso jejum, que vai em socorro à necessidade do outro. Assim, o pão que não esteve em minha mesa voluntariamente, deve estar na mesa daqueles que não o tem todos os dias, para que a súplica “o pão nosso de cada dia nos dai hoje” se concretize e o Reino aconteça.

Como o jejum dos alimentos encontra seu sentido alimentando o outro, toda renúncia encontra sua significação na cura das relações. Jejuar da malícia, da maldade, do egoísmo, da ambição... isso cura a todos nós, nos reconfigura como filhos do mesmo Pai amoroso, nos restabelece irmãos e irmãs.

Ser batizado é fazer experiência da morte para, com Cristo, encontrar a vida, vida nova, vida nele. Essa experiência é profunda, transformadora, comprometedora. Dessa forma, identificar a quaresma como sofrimento em si mesmo, é rejeitar a vida que o Ressuscitado nos oferece.

Pensemos em nosso batismo, na coerência de nossa vida batismal. Sejamos pessoas, comunidades, uma sociedade ressuscitada, o que só é possível a partir da nossa decisão pelo amor, pela verdade, pelas relações cheias de saúde. Relação com Deus, conosco mesmos, com nossos irmãos e irmãs, com nossa casa comum.

Como carecemos de saúde, de salvação! Cercados por crises, por mentiras, corrupção, por escândalos e mais escândalos nacionais, mundiais, não sejamos, nós, cristãos, também motivo de escândalo. 

“Mas o que é o escândalo? O escândalo é dizer uma coisa e fazer outra; é ter vida dupla. Vida dupla em tudo: sou muito católico, vou sempre à missa, pertenço a esta e aquela associação; mas a minha vida não é cristã. Não pago o que é justo aos meus funcionários, exploro as pessoas, faço jogo sujo nos negócios, reciclo dinheiro, vida dupla. Muitos católicos são assim. Eles escandalizam. Quantas vezes ouvimos dizer, nos bairros e outras partes: ‘Ser católico como aquele, melhor ser ateu’. O escândalo é isso. Destrói. Joga você no chão. Isso acontece todos os dias, basta ver os telejornais e ler os jornais. Os jornais noticiam vários escândalos e fazem publicidade de escândalos. Com os escândalos se destrói.” Papa Francisco (Homilia da missa matutina celebrada, no dia 23/02/2017, na Casa Santa Marta).

Sejamos coerentes, sejamos fiéis, sejamos amor!

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*Lorena Alves Silveira é graduanda em teologia, pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia. Coordena a Comissão Arquidiocesana de Liturgia, da Arquidiocese de Belo Horizonte.

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