Um Brasil cristão?

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O Brasil é um país cristão. Mas há no modo como vivemos razões para suspeitarmos dessa afirmação.
O autêntico seguimento de Jesus precisa se dar na contramão da cultura hodierna, a saber, uma cultura de morte e escravidões.
O autêntico seguimento de Jesus precisa se dar na contramão da cultura hodierna, a saber, uma cultura de morte e escravidões. (Reprodução/ Pixabay)
Por Tânia da Silva Mayer*

Antes que nos sejam apresentados novos dados e estatísticas, podemos afirmar que o Brasil é um país majoritariamente marcado por experiências religiosas autodenominadas cristãs. E mesmo que nos últimos anos tenhamos visto a diminuição do número daqueles que se declaram católicos, o percentual dos que se denominam evangélicos é crescente. No entanto, tanto católicos quanto evangélicos se afirmam na esteira do cristianismo, e quem participa dessas igrejas se reconhece como uma cristã ou um cristão. Nesse sentido é que se pode afirmar que o Brasil é um país cristão. Mas há no modo como vivemos razões para suspeitarmos dessa afirmação. Esse mesmo país cristão é o que mais mata as pessoas LGBTIs, que convive com o racismo que aniquila sua população negra, sobretudo a jovem, que acoberta o estupro e outras violências contra a mulher, que aceita uma situação de desigualdade social que finge não ver pessoas padecer a miséria e a fome, entre outras idolatrias. Por isso, carecemos interrogar se o Brasil católico e evangélico é, de fato, cristão.

E se a beleza não serve à mesa, o fato das igrejas se denominarem cristãs não diz nada sobre elas reunirem entre seus fiéis os seguidores e as seguidoras de Jesus Cristo. Podemos perguntar inclusive quantas pessoas nessas igrejas buscam conformar a própria vida ou tornar suas ações e palavras semelhantes as do homem Jesus. Certamente, o testemunho desse homem ainda inquieta, inspira, provoca e constrange muitas pessoas, pois ele está sempre antecipando uma práxis de amor e mais vida que os homens e mulheres ficam carecendo em suas relações ao longo das épocas. Tornar-se servo ao ponto de viver e doar a própria vida para que os outros, inclusive os inimigos, possam existir com dignidade é postura escandalosa que choca um mundo egoísta, individualista e mesquinho. Mas é uma postura assim que merece ser cultivada por quem se arrisca a seguir Jesus pelo caminho.

O autêntico seguimento de Jesus precisa se dar na contramão da cultura hodierna, a saber, uma cultura de morte e escravidões. Por isso, assim como os primeiros discípulos e discípulas, os homens e mulheres de nosso tempo precisam estar dispostos a abrirem mão do que mata e oprime para uma maior disponibilidade no serviço do Reino de Deus. Mas não é só isso, é necessário escolher o caminho do Mestre de nossas vidas, no qual, precisamente, não se reivindicam poderes e status e não há qualquer possibilidade de se conviver com as injustiças e desigualdades que relativizam a dignidade e os direitos da pessoa humana. Nosso país está muito aquém da práxis libertadora e inclusiva de Jesus, aliás, os que se autodenominam fiéis das igrejas cristãs estão muito aquém do fundamento último de nossa fé, a pessoa de Jesus e seu exemplo. Em tempos de eleição, os cristãos e as cristãs são chamados a serem cidadãos exemplares e isso significa, entre outras coisas, votar um projeto de país que priorize a convivência e a tolerância entre os diferentes e plurais, ao mesmo tempo em que proteja os pobres e as outras minorias que cotidianamente também violentamos em nome da fé.

*Tânia da Silva Mayer é mestra e bacharela em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE); graduanda em Letras pela UFMG. Escreve às terças-feiras. E-mail: taniamayer.palavra@gmail.com.

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