O fascínio da maldade

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Nas relações interpessoais, é impressionante como se ignora a dignidade do outro.
Voltando à vida real, observa-se a enorme ascensão dos maus, em detrimento dos demais.
Voltando à vida real, observa-se a enorme ascensão dos maus, em detrimento dos demais. (Reprodução)
Por Evaldo D' Assumpção*

Num rápido retorno à minha infância e juventude, recordo-me dos filmes que assistia no único cinema de minha cidade, o Cine Teatro Sidney. Geralmente o que mais fascinava à garotada eram os filmes chamados de “faroestes” em que as histórias sempre repetiam o tema:  mocinhos contra bandidos. Eram filmes completos e às terças-feiras e sábados, incluía-se um capítulo de seriados. Geralmente era um total de 14 capítulos, cada um com duração de 15 a 20 minutos. Esses capítulos sempre terminavam com uma cena onde o mocinho ou sua namorada se encontrava em condição de enorme risco, seguindo-se letreiro do tipo: “Conseguirá o herói salvar a sua amada? Voltem na próxima semana! ” E seguiam-se longos dias de ansiosa espera para que pudéssemos descobrir como o mocinho ou a sua frágil namorada iriam se safar das armadilhas do malvado bandido. Na verdade, bem sabíamos que eles sempre se safavam, mas saber disso, nada aliviava a nossa angustiada solidariedade com os heróis da estória. Nesses filmes, os atores que representavam os malfeitores eram quase sempre os mesmos. Dentre eles, os dois mais terríveis eram Brian Donlevy e Edward G. Robinson. Da mesma forma, os mocinhos eram sempre interpretados pelos mesmos atores. Assim, eles ficavam marcados como os “heróis” e os “bandidos”. Tanto na tela, como na vida real. Não me recordo de ter visto uma única inversão de papéis. E quando as crianças brincavam em grupo, era difícil conseguir quem aceitasse assumir o papel do bandido, pois todos só queriam ser os mocinhos...

Os anos passaram, e tudo mudou. Muitos artistas da TV, e mesmo dos filmes hollywoodianos, alternam-se em papéis de vilões e mocinhos. Mas, o que mais chama a atenção, é o fato dos que predominantemente fazem personagens supostamente bons, ansiarem por papeis de vilão, de vilã. E, quando o conseguem, ressaltam nas entrevistas que estão mais realizados, pois é no papel de malvados que acreditam exibir melhor seus predicados artísticos. Alguns, inclusive se vangloriam de passar pelas ruas e serem xingados e até agredidos pelos transeuntes, incapazes de separar a fantasia da realidade.

Talvez haja alguma veracidade nesse desafio de bem representar um bandido(a), mas também me questiono se isso não se deve a uma desvalorização do ser bom e honesto, em favor do que é mau e desonesto. Tomemos uma novela televisiva qualquer. Nos vários meses em que se desenrola a estória, os maus levam vantagem em tudo, ganham todos os embates com os personagens “bons” e prendem os telespectadores que ficam sempre aguardando a inversão das situações. Alguns chegam a torcer pelos “bandidos”, fascinados pela suas espertezas e peripécias. E somente na última semana, nas últimas cenas, é que os bonzinhos são resgatados e os maus são castigados. Isso quase sempre, pois em algumas estórias, os maus são apenas ligeiramente punidos – quando o são – conseguindo escapar, explícita ou sub-repticiamente, para usufruir dos frutos de suas trapaças em lugares distantes. Fica a mensagem subliminar de que “o crime compensa”.  

Voltando à vida real, observa-se a enorme ascensão dos maus, em detrimento dos demais. Basta olhar os políticos, especialmente os que ocupam altos cargos na administração pública, e que, querendo ou não, acabam servindo de modelo para a população, que vê no “tirar vantagem em tudo”, um modus vivendi apropriado. Voltando o olhar para o povo, observa-se que os comportamentos inadequados, começam pelos mais elementares, como o jogar lixo nas ruas, o não respeitar sinais de trânsito, o desinteresse pelos direitos alheios privilegiando o que se julga ser seus próprios direitos. Todas são situações onde o bem é totalmente ignorado, em favor do que é errado e ruim. Alguns insistem em que o importante é sempre levar vantagem.

Nas relações interpessoais, é impressionante como se ignora a dignidade do outro, seja na forma como o trata, seja no palavreado grosseiro e até agressivo; o simples desconhecimento de que aquela pessoa existe, e é um humano igual àquele que se julga superior a tudo e a todos. E tal comportamento reverbera nas ações dos bandidos, que se antes cometiam furtos (apoderar-se de coisas alheias sem qualquer atitude violenta), hoje roubam (tomam as coisas alheias com ameaças e meios violentos). E vão mais além, ferindo, estuprando, matando, inclusive crianças e idosos indefesos.

Em tudo se observa um crescente fascínio da maldade, que passou a ser cultivada ostensivamente, na ficção e na vida real. Não é sem razão que os jornais, em todas as suas formas, preferem ocupar seus dispendiosos espaços especialmente com as manifestações de maldade, que quanto maior, mais espaço ganha, com fotos e descrições detalhadas. E são curiosas as justificativas que dão, dizendo ser a expressão da realidade, e que aquilo serve para intimidar (?!) os bandidos. Inúteis e hipócritas justificativas, pois a verdade é uma só: quanto mais violência, sangue e mutilações, mais leitores, mais telespectadores, maior volume de audiência, e mais, muito mais lucro para a mídia. Depois, reclamam do aumento da violência, chorando sobre o sangue derramado, especialmente quando o é de seus parentes.

Há que se mudar tudo, e essa mudança tem de vir do alto, respaldada pela força dos meios de comunicação. Caso contrário, em breve voltaremos à barbárie, a Idade da Pedra.

*Evaldo D' Assumpção é médico e escritor

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