"Quem me dera ser leal, discreto e silencioso como minha sombra" (Dom Helder Câmara).

sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

Os mártires de Papa Francisco

 domtotal.com
Após um longo período de silêncio por parte da Igreja, o atual pontificado resgata o tema do martírio cristão na atualidade.
As reações diante do reconhecimento do novo beato foram as mais diversas possíveis.
As reações diante do reconhecimento do novo beato foram as mais diversas possíveis. (L'Osservatore Romano)
Por Mirticeli Dias de Medeiros*

Em 2015, Papa Francisco aprovou o decreto de beatificação do arcebispo de San Salvador (El Salvador), Óscar Romero, reconhecendo-o como mártir da Igreja Católica. Muitos contestaram a decisão do pontífice argentino alegando que o arcebispo salvadorenho, considerado um defensor dos direitos humanos em seu país, não tivesse sido assassinado por causa da fé, mas por motivações políticas. Um dia antes de ser atingido no peito pela arma de um franco atirador enquanto celebrava a missa no dia 25 de março de 1980, o arcebispo havia feito a chamada homilia del fuego, na qual atacava duramente o regime militar, fato que teria culminado na sua morte. “Em nome de Deus, que cesse a repressão!”, exclamou.

As reações diante do reconhecimento do novo beato foram as mais diversas possíveis. De acordo com a imprensa espanhola, o cardeal Antonio Maria Rouco Varela - arcebispo de Madri até 2014 -, teria dito que a beatificação de Romero se tratava de uma “beatificação política”, a qual teria sido articulada por grupos contrários à Igreja.

No entanto, muitos não se atentaram ao fato de que o título de mártir atribuído ao arcebispo latino-americano já havia sido conferido por João Paulo II, que quebrou o silêncio durante o jubileu do ano 2000, depois de quase 20 anos de interrogações em torno da vida do religioso. Na ocasião, o papa polonês recordou Romero na menção dos novos mártires do século XX. De sua parte, Romero jamais havia se declarado um comunista, mas um fiel seguidor da doutrina social da Igreja, algo que leva a questionar, até hoje, o que então teria travado o processo de canonização do salvadorenho. “O martírio de Oscar Romero continuou depois de sua morte, já que ele foi difamado e caluniado”, disse Papa Francisco.

Apesar de algumas questões ainda estarem em aberto, vale ressaltar que a beatificação de Romero insere-se na tendência desse pontificado de trazer à tona o tema do martírio. Depois do arcebispo salvadorenho, Francisco beatificou, entre tantos, os mártires sul-coreanos (2014) e canonizou os mártires de Cunhaú-Brasil (2017). Com isso, Bergoglio já pode ser considerado, inclusive, o papa que mais tem tratado da questão na era contemporânea. Evocando os mártires da igreja primitiva, o papa argentino não deixa de citar o martírio vivido pelos cristãos no Oriente Médio em muitos de seus discursos, ressaltando que o número de mortes entre aqueles que defendem a fé na atualidade chega a superar aquele registrado nos primeiros séculos do cristianismo.

 Os heróis do cristianismo na era do papa argentino não são somente aqueles que sustentam uma profissão de fé diante de ‘seus algozes’, mas também aqueles que, com a vida, doam-se pelo próximo até as últimas consequências. Entre os ‘bispos com cheiro de ovelhas’ e leigos ‘que se se arrisquem e sujem as mãos’, Francisco acredita na igreja que conquista pelo testemunho, não por proselitismo. Prova disso foi o recente motu proprio aprovado por ele em julho deste ano chamado Maiorem hac dilectionem, através do qual reconhece a “oferta de vida” como um novo meio para reconhecimento de um santo; uma terceira via acrescentada à lista daquelas já existentes, ou seja, o martírio e a heroicidade das virtudes. “São pessoas que ofereceram volutariamente e livremente a vida pelos outros e perserveraram até a morte nesse propósito”, explica o documento.

*Mirticeli Dias de Medeiros é jornalista e bacharel em História da Igreja e bens culturais pela Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma, e atualmente, mestranda em História da Igreja na mesma instituição. Desde 2009, cobre primordialmente o Vaticano para meios de comunicação no Brasil e na Itália, sendo uma das poucas jornalistas brasileiras credenciadas como vaticanista junto à Sala de Imprensa da Santa Sé.
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Pe. Geovane Saraiva

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