"Quem me dera ser leal, discreto e silencioso como minha sombra" (Dom Helder Câmara).

terça-feira, 8 de agosto de 2017

'Deus, que fizemos?'

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Lewis registrou em seu diário o que ainda é impensável de ser realizado por humanos contra seres humanos.
A nuvem de cogumelo sobre Hiroshima (esquerda) após a queda da Little Boy e sobre Nagasaki, após o lançamento de Fat Man.
A nuvem de cogumelo sobre Hiroshima (esquerda) após a queda da Little Boy e sobre Nagasaki, após o lançamento de Fat Man. (Reprodução)
Por Tânia da Silva Mayer*

"Deus, que fizemos?" é a anotação que o copiloto do Enola Gays, Lewis, escreveu em seu diário de bordo, minutos depois de sobrevoar Hiroshima, no Japão, após ela ter sido alvo da bomba atômica, que os pilotos americanos lançaram sobre o céu claro da cidade. Essa frase foi registrada na manhã do dia 06 de agosto de 1945, quando os Estados Unidos e seus Aliados forçaram o Japão a se render, já no final da Segunda Guerra Mundial. Naquela manhã, uma cidade inteira foi dizimada. Milhares de pessoas foram desintegradas, outras morreram carbonizadas ou vítimas de queimaduras provocadas pelo bombardeio. Uma catástrofe promovida por mãos humanas.

Após a percepção da coluna de fumaça maciça provocada pela explosão da bomba, o copiloto Robert A. Lewis registrou em seu diário o que ainda é impensável de ser realizado por humanos contra seres humanos. Trata-se de algo inimaginável, que não pode atingir nunca o status de normalidade. Quantas pessoas foram mortas de uma única vez e de maneira tão perversa? Como o Japão não se rendeu aos Aliados, alguns dias depois do bombardeio em Hiroshima, em 09 de agosto, outra bomba foi lançada contra a cidade japonesa de Nagasaki, matando outros milhares de pessoas. Um terror nunca antes contemplado. Pessoas inocentes morreram, sem ao menos saberem de onde estava vindo a morte que lhes mataria.

Já se passaram pouco mais de setenta anos dos bombardeios que chocaram nossa época no quesito desumanidade, mas ainda é exigente pensar em como os avanços das ciências, que tantos benefícios trouxeram para a humanidade, no desenvolvimento de técnicas, por exemplo, que permitiram detectar e controlar epidemias e doenças, que assolaram populações inteiras, também possibilitaram o show de horrores protagonizado no bombardeio dessas cidades. Não tinham a dimensão das consequências, aqueles que trabalharam construindo a bomba? Não tiveram o mínimo de piedade, os homens que autorizaram os lançamentos? Não hesitaram, os que dispararam as bombas contra civis inocentes, contra, sobretudo, mulheres e crianças? Nenhum tino de realidade?

O mundo estava divido, à época. E o outro era o inimigo a ser eliminado. O terror era experimentado na pele e não havia limites para a crueldade. Nazismo, fascismo, xenofobismo e racismo eram sentimentos, posturas e crenças comuns, que alimentavam o desejo de extermínio do que não é espelho. Hoje o mundo se encontra outra vez divido, a sensação do "eles" e "nós" fomenta a identificação de inimigos, tantas vezes irreais. O Brasil está divido. E toda vez que isso acontece, soam alarmes de que muitos males podem estar por vir. O fantasma das bombas precisa nos ensinar que a guerra não compensa e que o diferente é alguém cuja vida deve ser respeitada. Onde está Deus nisso tudo? Que resposta daria em Hiroshima à pergunta do copiloto Lewis? Que Ele nos diria a nós que fazemos guerra com nossas próprias mãos? No silêncio dos inocentes, pasma um Deus apaixonado.

*Tânia da Silva Mayer é mestra e bacharela em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE); graduanda em Letras pela UFMG. Escreve às terças-feiras. E-mail: taniamayer.palavra@gmail.com.
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Pe. Geovane Saraiva

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