"Quem me dera ser leal, discreto e silencioso como minha sombra" (Dom Helder Câmara).

segunda-feira, 3 de julho de 2017

Umberto Eco: Chega ao Brasil, o último livro preparado pelo escritor italiano

por Dellano Rios - Editor de área

Umberto Eco tinha 84 anos quando morreu. Nos dois últimos anos de vida, ele enfrentou um câncer no pâncreas, que terminaria por matá-lo, em fevereiro do ano passado. 

Um dos últimos projetos aos quais se dedicou ilustra bem suas paixões intelectuais e a maneira como entendia suas contribuições. Com idade avançada e sofrendo de um mal potencialmente fatal e difícil de debelar, ele contribuiu para a criação de uma editora, La Nave di Teseo, e confiou a ela seu último livro. Uma casa editorial (ou, uma "nau", como diz seu nome) percorreria caminhos que facilmente superariam o tempo de vida que ainda restava a Eco. Mesmo com tão pouco tempo a lhe restar, os livros e os leitores eram preocupações ainda urgentes.
"Pape Satàn Aleppe: crônicas de uma sociedade líquida" foi lançado na Itália apenas uma semana após a morte de seu autor. Chegou às livrarias junto com "Come viaggiare con un salmone" ("Como viajar com um salmão"), coleção de ensaios breves, de sabor satírico, sobre alguns absurdos do cotidiano, observados ao longo de 30 anos. O primeiro título chamou mais a atenção do público - e, antes do outro, acaba de ser traduzido e publicado no Brasil, pela Record. Apesar do título obscuro, "Pape Satàn Aleppe" tinha o atrativo de reunir ensaios curtos de Eco, sobre um bom número de temas da atualidade. É, portanto, a voz de um grande intelectual de nosso tempo falando de coisas com as quais esbarramos no dia a dia. Tudo bem, temos valorizado cada vez menos as pessoas inteligentes, mas, pensando bem, a inteligência satírica de "Come viaggiare con un salmone" pode estar um passo além...
As "crônicas de uma sociedade líquida" de Eco foram publicadas na coluna La Bustina di Minerva, da revista L'Expresso. A seção foi criada por Eco em 1985 e se manteve ativa até as vésperas de sua morte. "Pape Satàn Aleppe" não é o primeiro livro reunindo material publicado na L'Expresso. O primeiro, intitulado apenas "La Bustina di Minerva", foi lançado na Itália, em 1999, mas permanece inédito em português. Neste, Eco compilou material dos primeiros 15 anos; no mais recente, ensaios escritos entre 2000 e 2016. Ele ordenou as "bustinas", como chamava os ensaios da coluna, e as distribuiu em 14 tópicos. Estes correspondiam a eixos temáticos como os livros, os celulares, os "mass media", as conspirações e o racismo.
Conexões
Não deixa de ser curioso, que nesta primeira leva de livros póstumos de Umberto Eco, se destaque uma obra como "Pape Satàn Aleppe". Não que se trate de uma obra importante, que entre na lista de leituras obrigatórias do que ele escreveu. Contudo, é notável como a antologia serve para ilustrar a razão de Eco ter se tornado um intelectual atipicamente popular, num mundo cada vez mais irracionalista. E, por isso mesmo, se apresenta como um excelente início para quem deseja conhecer melhor o autor.
A combinação de título e subtítulo já é digna de nota. A coleção foi batizada com um verso de "A Divina Comédia", obra maior da língua italiana, escrita por Dante Alighieri (1265 - 1321); o subtítulo, uma adesão à ideia de liquidez - portanto, a falta de solidez - contemporânea de nossas civilizações, tema de um sem número de obras do sociólogo polonês Zygmunt Bauman (1925 - 2017).
O verso de Dante abre o Canto VII, do "Inferno", uma das três partes da obra, que narra a jornada do autor, do mundo inferior ao Céu. "Papé Satàn, papé Satàn aleppe", vocifera Plutão, deus dos mortos na mitologia romana, demônio guardião do quarto círculo do Inferno, na fantasia dantesca. As três palavras e a frase que compõem têm significado desconhecido, apesar de sugerirem algum tipo de invocação infernal. "Estas palavras confundem as ideias e podem se prestar a qualquer diabrura", explica e justifica Eco, evocando a condição "desconexa" deste começo de milênio. Dante, num texto do começo do século XIV, é citado para ilustrar a "natureza líquida destes 15 anos". E o conceito é o mesmo de Bauman. "A sociedade líquida", aliás, é o título de uma bustina de 2015, publicada junto à introdução, como uma espécie de guia para o fenômeno que perpassa a maior parte do que é comentado por Eco em seus ensaios.
A conexão Dante-Bauman é um exemplo da ideia de "contemporâneo" que baliza as bustinas. Eco explica que, quase sempre, o tema é alguma atualidade, mas que por vezes o atual é o desejo dele de, por exemplo, reler uma HQ dos tempos de menino ou uma página de algum monumento literário da Antiguidade.
A capacidade de se movimentar - por temas da cultura erudita, popular, pelo passado e por aquilo que parece anunciar o futuro - foi o trunfo de Eco. O interesse de chegar ao leitor comum, sem abandonar suas origens acadêmicas, exigiram o ritmo de produção de que poucos são capazes de dar conta. A bibliografia do italiano é vasta: inclui estudos sobre estética medieval, teoria semiótica, a tradução, as culturas de massas, a ficção literária, a história (e o futuro do livro); mas também ensaios; muito próximos do registro oral, como uma conversa informal com um interlocutor de inteligência e fluência verbal acima da média; e romances.
Sedução
"Pape Satàn Aleppe" se inscreve num campo da obra de Eco, que permite ao leitor não especializado alcançar questões que, muitas vezes, são aprofundadas e dão corpo aos livros mais acadêmicos do autor, como "Apocalípticos e integrados", "Arte e beleza na estética medieval" e "As formas do conteúdo". Nas bustinas, contudo, o escritor também se vale de artifícios próprios de seu trabalho como romancista. Eco não é um guia como Virgílio é para Dante, em "A Divina Comédia", inteiramente confiável, protetor daquele que o acompanha.
A postura de Umberto Eco é, para continuar na comparação com o livro, mais "infernal". Não que engane o leitor, mas há momentos que o escritor joga com ele e espera que este saiba se sair. Eco seduz - e, portanto, desvia. Desviar o caminho, no que diz respeito ao pensamento, pode ser uma maneira de fugir ao lugar comum, de fazer descobertas. Mas pode ser também a trilha que leva a uma armadilha.
Um exemplo: em alguns momentos, Eco fala que, do ponto de vista tecnológico, estamos dirigindo em marcha ré, citando a reaparição de técnicas e tecnologias do passado em novos projetos - como o uso de cabos para o acesso à internet. Quem cair neste jogo de ideias, pode acabar reproduzindo um discurso que parece inteligente, mas que pode ser facilmente desmontado por alguém mais articulado. O que Eco está falando, neste caso, é outra coisa. Ele quer atrair o leitor para tratar da não-linearidade da engenhosidade humana e para a existência de artefatos que, ele sustenta, não podem ser aperfeiçoados, como a colher e o livro.
Livro
Pape Satàn Aleppe - Crônicas de uma sociedade líquida
Umberto Eco
Tradução: Eliana Aguiar
Record
2017, 420 páginas
R$ 59,90

Diário do Nordeste
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Pe. Geovane Saraiva

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