"Quem me dera ser leal, discreto e silencioso como minha sombra" (Dom Helder Câmara).

terça-feira, 11 de julho de 2017

Cristãs e cristãos fofoqueiros

domtotal.com
A fofoca é fruto da desinformação ou de uma informação equivocada, descontextualizada, e fruto de uma especulação que objetiva a calúnia e difamação de uma pessoa.
A busca pela verdade e pela transparência deve basear todos os envolvidos num processo de comunicação.
A busca pela verdade e pela transparência deve basear todos os envolvidos num processo de comunicação. (Divulgação Pixabay)
Por Tânia da Silva Mayer*

O título deste artigo denuncia a matéria de que iremos tratar adiante. Mas se o leitor tiver a paciência e a generosidade de acompanhar a leitura, entenderá o que estamos falando. A figura do fofoqueiro, aquele que faz fofoca, não é bem quista entre nós. Apesar disto, quem nunca fez uma fofoca, uma fofoquinha ou mesmo um fofocão? E quem nunca ouviu e deu atenção a uma fofoca? Sabemos que a prática de contar histórias e segredos dos outros, verdadeiros ou não, a fim de expor pessoas e até prejudica-las é mais comum do que imaginamos, e isso define em nosso contexto o que compreendemos por fofoca. E a constatação de que todos nós partilhamos dessa prática, em maior ou menor grau, faz-nos relativizar suas consequências, de modo que só atire pedras, aquele que não tiver pecados.

No entanto, a admissibilidade do fofoqueiro é sempre contestada porque ela coloca em xeque o outro, que normalmente é constrangido pelo boato espalhado. A fofoca, tantas vezes, é fruto da desinformação ou de uma informação equivocada, descontextualizada e, por isso, fruto de uma especulação que objetiva a calúnia e difamação de uma pessoa. Numa ética com pretensões cristãs, questiona-se nesses cenários a responsabilidade pelo outro e pela vida deste, que deve ser preservada aprioristicamente. Disto não se pode abrir mão. Nesse sentido, a prática de se fazer fofoca não pode nunca ser aceita entre os cristãos e as cristãs, nem tampouco praticada por estes, porque ela tende a prejudicar o próximo à medida que não nos responsabilizamos por eles.

Num contexto sociocultural em que a comunicação aflora por causa de suas múltiplas ferramentas e tecnologias é fundamental uma postura diferenciada de comunicadores e receptores, sobretudo se estes forem cristãos. A busca pela verdade e pela transparência deve basear todos os envolvidos num processo de comunicação, tanto por parte daqueles que comunicam uma notícia quanto por aqueles que a recebem. O Papa Francisco tem insistido numa comunicação responsável, comprometida com a verdade e que não exponha os outros à vergonha. Em 2014, em audiência com cerca de 400 profissionais da comunicação católica italiana, ele exortou: “Para mim, os pecados da mídia, os maiores, são aqueles que seguem pelo caminho da mentira e são três: a desinformação, a calúnia e a difamação”; e ainda: “Estes dois últimos são graves, mas não tão perigosos como o primeiro”; e completou: “Mas a desinformação é dizer a metade das coisas, aquilo que para mim é mais conveniente e não dizer a outra metade”; e finalizou: “Destes três pecados, por favor, fujam! Desinformação, calúnia e difamação”.

Como se pode ver, os cristãos e as cristãs são exortados a romperem com os sistemas de comunicação que não presumam a verdade e não se responsabilizam pelas pessoas envolvidas nas notícias a serem comunicadas. Nesse sentido, devem fugir do ser fofoqueiro, seja nos meios de comunicações de maior alcance, como rádio, televisão e redes sociais, ou mesmo num contexto familiar e eclesial, no qual estamos mais próximos uns dos outros. Mas gostaríamos de defender aqui a tese de que as cristãs e os cristãos contemporâneos são convidados a serem fofoqueiros exitosos, não da maneira como abordamos acima, mas de um modo bastantemente cristão e com a finalidade do anúncio do Evangelho. Trata-se de fazer fofoca, não da vida do irmão e da irmã de caminhada ou de outra pessoa qualquer, de modo a expô-los ao vexame, mas das ações e palavras daquele que é o Mestre de nossas vidas e que veio até nós para que tivéssemos mais vida.

Nesse sentido, entenderemos por fofoqueiro aquele que espalha uma Boa-Notícia, portanto, não como mentiroso, em vistas de prejudicar alguém, mas como quem transmite uma verdade, a fim de comunicar uma alegria da qual ninguém é excluído. Precisamente, esta alegria é Jesus Cristo, a respeito do qual somos chamados a fazer uma fofoca, que será tanto mais exitosa quanto mais pessoal ela for contada. Nesta esteira, compreende-se que uma boa fofoca sobre a vida de Jesus será tanto melhor, quanto mais for contada ao pé do ouvido, ação que só pode se dar através de um encontro salutar com aquele a quem se deseja partilhar este anúncio.

É Jesus mesmo que manda discípulos e discípulas fofocarem a respeito dele, não uns dos outros: “ide contar a João o que estais vendo e ouvindo”. Mas para não cair na armadilha dos fofoqueiros medíocres que não tem conhecimento da causa que transmitem de maneira irresponsável, é preciso responder ao Mestre quem ele é e o que ele significa em nossas vidas. É preciso conhecer Jesus e ser capaz de guardar suas palavras no coração e praticá-las, só assim poderemos dizer dele tudo o que vimos e ouvimos, sem o risco de transmitir inverdades ou falsas imagens que traiam quem ele é e que neguem tudo quanto ele mesmo fez e comunicou às pessoas que estiveram com ele. Será por meio da fofoca sobre a vida de Jesus, esse cochicho de pessoa a pessoa, que a fé cristã terá mais chances de encontrar lugar no horizonte de sentido da vida de muitos fiéis. Se não falarmos dele agora, não serão as pedras que fofocarão daquele que é o Mestre de nossas vidas.
*Tânia da Silva Mayer é mestra e bacharela em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE); graduanda em Letras pela UFMG. Escreve às terças-feiras. E-mail: taniamayer.palavra@gmail.com.
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Pe. Geovane Saraiva

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