"Quem me dera ser leal, discreto e silencioso como minha sombra" (Dom Helder Câmara).

quarta-feira, 14 de junho de 2017

Se eu soubesse. Se eu soubesse que dói. Se eu soubesse que dói tanto.

  Folha de Londrina | Jun 14, 2017
Por luxorphoto
Se o crime que cometi há 25 anos fosse tatuado em minha testa, vocês leriam nela: "Eu matei uma criança".

Filho,
Hoje você estaria completando 25 anos se eu o tivesse deixado nascer. O dia nasce, a flor nasce, a estrela da manhã nasce, nascem o absurdo, o silêncio, a esperança, a perplexidade — mas você não nasceu, e por minha culpa, minha máxima culpa.

Sua mãe, que hoje vive em terras distantes, bem que hesitou. Um médico que conhecíamos tentou nos demover da ideia fatídica — agora eu vejo claramente que era um anjo de Deus —, mas nos mantivemos irredutíveis. Eu até mesmo fiquei com raiva desse amigo, por dizer não ao crime que eu estava prestes a cometer. Ah, como que eu queria voltar no tempo e dizer: — Obrigado, doutor! Obrigado! Você vai ser o padrinho desta criança.

Mas máquinas do tempo não existem, não pertencem à estrutura da realidade. A única disponível, e altamente perigosa, é a nossa própria alma. Naquela época, entretanto, eu não acreditava na existência da alma. Estava louco, louco de egoísmo e vaidade.

Você só estava esperando o dia da luz, meu filho; porém, vieram as trevas. Eu lhe neguei a manhã, a tarde, a noite, a madrugada, a água, o calor, o frio, o livro, a sinfonia, o poema, a amizade, o poente de Londrina, o cheiro da chuva caindo na terra, a canção de ninar, o vinho e o pão. Eu lhe neguei o sorriso e o choro. Eu lhe neguei olhos, mãos, coração. Eu lhe neguei o direito de gritar, no escuro, Mãe! Eu lhe neguei o direito de nascer. Só não lhe neguei aquilo que não podia negar: a paixão e a ressurreição. Isso você já teve.

Se eu soubesse. Se eu soubesse que dói. Se eu soubesse que dói tanto, filho. Eu fui o seu Herodes.

Escrevo estas palavras com a distância de um quarto de século, mas parece que o meu pecado (meu crime) foi cometido ontem. Seu adeus é onipresente, sua presença é um adeus eterno em minha vida. Sim, a ferida foi curada pelas mãos do médico misericordioso, mas a cicatriz é tão grande que ocupa toda a minha alma. Eu sou a cicatriz do meu pecado. Repare: tudo que faço é um ato de reparação.
Um dia espero conhecê-lo, filho. Segundo S. Tomás de Aquino, renasceremos todos com a idade de Cristo. Hoje você existe em algum lugar do universo, com 33 anos. Tem um nome, um rosto e uma voz que desconheço.

Fico pensando em quem você seria: um médico, um engenheiro, um músico, um matemático, um filósofo, um professor, um padre, um operário, um marceneiro? Como você amaria o seu meio-irmão mais novo, nascido tantos anos depois! Agora não importa, filho. A sua profissão, para sempre, será nascer.

No dia de nosso encontro, filho, depois de deixar a dor desta vida, eu tomarei suas mãos e o abraçarei com força. E a minha primeira palavra você já sabe qual será:

— Perdão.

Filho, às vezes eu penso que você existe para me perdoar. Só assim poderei contemplar a face de Deus. Por isso, todo dia para mim é o Dia do Nascituro. Todo dia é o Dia.

(Paulo Briguet, via Folha de Londrina: http://www.folhadelondrina.com.br/blogs/paulo-briguet/carta-a-um-nascituro-972003.html)

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Um comentário:

  1. Confie em Deus que o seu arrependimento sincero há de alcançar o perdão

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Pe. Geovane Saraiva

Pe. Geovane Saraiva

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