"Quem me dera ser leal, discreto e silencioso como minha sombra" (Dom Helder Câmara).

quinta-feira, 29 de junho de 2017

Por que o Filho se senta à "direita" do Pai, de acordo com Santo Agostinho

domtotal.com
Se o Filho é consubstancial ao Pai, ou seja, se ele é da mesma substância que o Pai e com ele é um só, porque o Credo o coloca "sentado à direita do Pai"?
Luca Rossetti da Orta, a Santíssima Trindade, afresco na igreja de São Gaudêncio em Ivrea (Torino).
Luca Rossetti da Orta, a Santíssima Trindade, afresco na igreja de São Gaudêncio em Ivrea (Torino).
 (Reprodução/ Catholic Herald).

Em seu Sermão aos Catecúmenos, Santo Agostinho pronuncia solenemente que, no céu, "aí tudo é mão-direita, porque lá não há miséria" (De Symbolo, 11). Contudo, enquanto um céu desprovido de canhotos pode ser uma má notícia para Ned Flanders - personagem de "Os Simpsons", dono da loja Canhotório e cristão mais famoso da TV -, é uma boa notícia para a humanidade.

Aqui está o porquê.

Ontem, uma amiga santa e inteligente me fez uma pergunta que foi colocada por alguém em sua catequese do Rito da Iniciação Cristã de Adultos (RICA): Se o Filho é consubstancial ao Pai, ou seja, se ele é da mesma substância que o Pai e com ele é um só, porque o Credo o coloca "sentado à direita do Pai"? Isso parece sugerir que o Filho lhe é subordinado. Por exemplo, alguém que é "o braço direito" de um candidato irá se sentar ao seu lado quando este ganhar.

É uma ótima pergunta . E, como tal, merece uma boa resposta.

Em primeiro lugar, não precisamos tomar a frase de modo tão literal. Enquanto o Filho é dotado de um corpo humano (glorificado), o Pai é incorpóreo. Portanto, ele não tem mãos nem lados para que o Filho se sente literalmente. Então, como muitas vezes ao tratarmos de questões religiosas, estamos falando aqui simbolicamente.

Em segundo lugar, a "mão direita" é usada em todas a Escritura como um símbolo tanto para a intimidade quanto para o poder e a autoridade de Deus. Assim, nos Evangelhos, Jesus cita o Salmo 110: "O Senhor disse ao meu Senhor: ‘Senta-te à minha direita, até eu colocar teus inimigos debaixo dos teus pés’" (Mateus 22,44). Paulo, escrevendo aos Efésios do "incomparável e excelente poder de Deus", diz-lhes:

A extraordinária grandeza do seu poder para nós, os que cremos, conforme a ação do seu poder eficaz, que ele fez operar em Cristo, ressuscitando-o de entre os mortos e fazendo-o assentar à sua direita nos céus, muito acima de qualquer Principado e Autoridade e Poder e Soberania" e de todo nome que se pode nomear não só neste século, mas também no vindouro. (Ef 1, 19-21).

Evidentemente, Paulo não está pensando aqui na "mão direita" como um degrau inferior em um pódio divino. Em vez disso, afirma que Cristo compartilha exatamente o mesmo poder e autoridade que o Pai.

Em terceiro lugar, como agora está claro, Cristo não se "senta" como as crianças da escola fazem diante de um professor, mas sim da maneira que um Juiz ou Rei faz. (Cristo, claro, é ambos.) Ele está "sentado" no sentido de estar instalado em uma posição de suprema honra e autoridade.

A ideia aqui é a de Deus "Pai, Todo-Poderoso, criador do céu e da terra", entronizado nos Céus, diante de quem toda Criação se inclina. E uma vez que o "único Senhor, Jesus Cristo, o Filho unigênito" é tão completa e verdadeiramente Deus como o Pai, ele é entronizado ao seu lado como seu igual.

Em quarto lugar e, finalmente, tudo isso importa, ou deve nos importar, porque envolve um imenso valor. Comentando esta frase no Credo, Santo Tomas cita São João Damasceno com aprovação:

Como ensina Damasceno, não supomos um lugar material quando falamos na direita do Pai. Pois, como poderia ocupar a direita, enquanto lugar, aquele que é incircunscriptível? Porque direita e esquerda, materialmente falando, são propriedades dos seres circunscriptíveis. Por onde, o que entendemos pela direita do Padre é a glória e a honra da divindade. (Summa theologiae, III, q.58, a.1)

Assim, Cristo está sentado à mão direita do Pai, pois, como Deus verdadeiro, ele compartilha "a glória e a honra da Divindade".

Mas lembra do que apontamos acima sobre o fato de ele ter, por ser verdadeiro homem, um corpo humano (glorificado)? Isso significa que, em Cristo, a própria humanidade se encontra entronizada à direita do Pai. Os Padres da Igreja da grandeza de Atanásio e Gregório Nazianzeno acharam esse fato tão incrível que o enfatizam repetidas vezes. E, de fato, sustentam sua máxima de que "Deus se tornou homem, para que o homem se torne Deus".

Através de Cristo, somos (ou pelo menos temos o potencial para nos tornarmos) "herdeiros de Deus e co-herdeiros com Cristo" (Romanos 8,17). Desta forma, então, habitaremos na bem-aventurança divina, em nosso legítimo lar no Céu, isto é, à direita do Pai, juntamente com nosso irmão Jesus Cristo.

E é por isso que, para Agostinho, não pode ter pessoas à esquerda na felicidade da nossa casa celestial. Porque "Lá todos estamos à direita".

Catholic Herald

Tradução: Ramón Lara
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Pe. Geovane Saraiva

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