"Quem me dera ser leal, discreto e silencioso como minha sombra" (Dom Helder Câmara).

domingo, 9 de abril de 2017

O fim da humanidade

 domtotal.com
A humanidade está à beira do fim.
A arlesiana, de Vincent van Gogh.
A arlesiana, de Vincent van Gogh.
Por Gilmar Pereira

O humano morre e quem o mata somos nós. Não se espante se esta sentença lhe parece trágica. Não passa de uma constatação simples que evitamos para não notar nossas mãos sujas de sangue. O humano agoniza e não sabemos se terá salvação.

Haja como criminalista e investigue as provas, elas estão por toda a parte. Talvez por isso não se note, porque a melhor forma de esconder algo é coloca-lo à vista de todos. A convivência contínua com esses indicadores faz com que se tornem naturais a nós e, por isso, percam sua obviedade.

Primeiro, contudo, consideremos o que seja o ser humano. Já se tentou uma série de definições como homo sapiens, homo faber, homo ludens e já se falou até de um pós-humano. O mais clássico está na expressão “animal racional” e colocaria o acento na racionalidade como o que distingue a humanidade da animalidade. Vários pesquisadores já buscaram falar da existência de razão em outros seres, mas notam um sistema menos complexo, caracterizado mais como “sismos de significante” que aquilo que chamamos espírito humano.

De qualquer forma, o que o distingue é o modo de experimentar o mundo e é justamente este ponto que se tem perdido. Sem experiência, a humanidade morre. E hoje há muito pouca experiência, justamente em uma época que não temos tempo para coisa alguma. A morte se dá apesar da muita ação.

Experiência tem uma raiz, ex, designando o “para fora” e outra, peri, que tem algo de “passar ao outro lado”. Essa dimensão de travessia, etimologicamente, fala de um “abrir-se”, mas fala também de “atacar” e também “por à prova”. É de peri que vêm palavras como perímetro, perigo, perito e mesmo outras distantes como pirata ou preço. Experiência, pois, trata de um abrir-se e de um sair de si que leva ao estabelecimento de relação, um provar do outro, tem um aspecto de transcendência.

E como as experiências estão acabando? Observe as coisas mais banais. As pessoas vão a um show e, antes do cantor subir ao palco, seus braços se erguem sustentando celulares para gravações. O show é, em grande parte, assistido da tela do aparelho, embora se esteja presente no evento. Note o como se tem comido. A rapidez para comer ou mesmo o uso de televisão e internet durante a refeição impossibilitam a experiência, no seu sentido autêntico, do comer. Aliás, o comer tem perdido até mesmo seu aspecto de sabor e prazer e tem se reduzido à funcionalidade nutritiva de acordo com a obsessão estética. Como alguns alimentos engordam, tornou-se melhor a ingestão de compostos e suplementos para suprir sua carência.

Em suma, olha-se e não se vê, alimenta-se e não se saboreia e degusta. Do mesmo modo, pode-se passar a outras ações. Mesmo o sexo entrou na lógica da quantidade ansiosa sem encontro do outro, de seu corpo e seu prazer. O gozo não é o da experiência sexual, porque ela não existe. Experiência pressupõe uma intensidade de troca com o experimentado. Por isso, apesar da muita ação, as mesmas não satisfazem. Inácio de Loyola estava certo ao dizer que “não é o muito saber que sacia e satisfaz a alma, mas o sentir e saborear internamente as coisas”. Isto é experiência: tocar as coisas e ser por elas tocado; ver e se deixar ser visto (porque aquilo que olhamos nos devolve o olhar e nos mostram a nós mesmos).

Sem experiência, somos apenas máquinas que realizam funções fisiológicas e sociais. Sem experiência, isolamo-nos em nós mesmo e não conseguimos dialogar, ter profundidade, amar, considerar o outro como também humano. O que se tem hoje é um simulacro da experiência. Não somos mais humanos, mas um arremedo do que foi isso um dia.

ENTRE NÓS – A FIGURA HUMANA NO ACERVO DO MASP

A exposição tem como eixo central a representação da figura humana, tema que atravessa diferentes histórias da arte presentes nas diferentes coleções do acervo do MASP. Da celebrada coleção europeia, passando pelas coleções pré-colombiana, africana, brasileira e latino-americana. Com peças do Povo Iorubá (Nigéria), da cultura Chancay (Peru) e de artistas como Rafael, Ticiano, Renoir, Van Gogh, Picasso, Diego Rivera, Burle Marx, Portinari, Djanira, Flávio de Carvalho. Curadoria: Rodrigo Moura e Luciano Migliaccio.

Local: CCBB – BH

Data: 26/04 a 26/06

Horário: 09h às 21h

Entrada Franca


Gilmar Pereira
Mestre em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP, graduado em Filosofia pelo CES-JF, graduando em Teologia pela FAJE. Apaixonado por arte, cultura, filosofia, religião, psicologia, comunicação, ciências sociais... enfim, um "cara de humanas". Escreve às sextas-feiras.
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Pe. Geovane Saraiva

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