"Quem me dera ser leal, discreto e silencioso como minha sombra" (Dom Helder Câmara).

segunda-feira, 10 de abril de 2017

Em busca das diversidades

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A Igreja de Roma não representa o ponto de unidade e comunhão da fé, mas modelo para que as dioceses em todo o mundo repitam.
A diversidade acontece quando há harmonia entre os diferentes.
A diversidade acontece quando há harmonia entre os diferentes. (Divulgação)
Por Felipe Magalhães Francisco*

Antes de qualquer coisa, é preciso dizer: a diversidade é um dom. Em tempos de pós-verdade, quando só damos ouvido para aquilo que nos agrada, é preciso resgatar o valor das diversidades. Vejam os leitores que usamos diversidades no plural, propositalmente. É próprio do humano a diferença: orgânica, cultural, religiosa, sexual, afetiva. A pluralidade é uma riqueza, que nos abre à possibilidade de ser mais, de crescimento humano e social. Quando o que comemos, vestimos e adquirimos é produzido em série, é bom ter vivo diante de nós a perspectiva do diverso, do plural.

O discurso único é autoritário. E parte do ódio social que temos vivido, seja politicamente ou noutros aspectos, é fruto desse discurso único, da negação da diferença. Os fundamentalismos estão aí, às claras, como prova disso. Os correntes assassinatos às minorias sexuais, em exorbitantes e monstruosas estatísticas, também. Resgatar o aspecto das diversidades é fundamental para dar novos rumos à sociedade que construímos. Isso, sobretudo nesse tempo pós-moderno, de fragmentação de tudo, e que buscamos um lugar seguro para nos firmar. O apego àquilo que acreditamos nos deixar seguros, tal como a tentativa autoritária de uniformismo político, religioso, comportamental, entre outros, é uma falsa segurança, apenas, que nos levará a um colapso em nossas relações.

Na vivência religiosa católica atual, vivemos um paradoxo, no que diz respeito a essa dinâmica da diversidade. Temos visto crescer, de forma pululante, o número de movimentos religiosos, bem como de novas comunidades, que, aparentemente, revelam o valor da diversidade na forma de viver e praticar a fé. No entanto, essa diversidade não existe porque tais movimentos e comunidades estão fechados em si mesmos. A diversidade acontece quando há harmonia entre os diferentes. Essa harmonia nasce do respeito e do reconhecimento de que o outro é, necessariamente, outro. O que não significa concordância de todo e qualquer tipo. A convivência harmoniosa entre os diversos é critério imprescindível, nesse caso, pois só assim há agregação de valores que enriquecem as experiências humanas.

A Igreja Católica foi percorrendo um caminho de uniformidade que minou, pouco a pouco, a diversidade de expressões de seguimento de Cristo, nas muitas comunidades de fé em todo o mundo ocidental. Esse caminho teve seu ponto ápice no Concílio de Trento e, ainda hoje, padecemos essa situação. A Igreja de Roma, nesse horizonte, não representa o ponto de unidade e comunhão da fé, mas modelo para que as dioceses em todo o mundo repitam. Sob o pastoreio de Francisco, como Bispo de Roma, nova abertura para a diversidade, vivida na comunhão e na unidade da fé, desponta no seio católico. Basta que nos atentemos para a liberdade pastoral dada às dioceses para que, elas mesmas, busquem um caminho de lidar com a situação dos divorciados recasados, no que diz respeito à sua integração na comunidade de fé, à luz da Exortação Pós-sinodal Amoris laetitia.

O cristianismo nasce de maneira plural e diversa. A negação disso é a negação de sua própria natureza. Os representantes católicos, conscientes disso, devem contribuir para a valorização das diversidades no mundo. Também os líderes evangélicos são chamados a isso, ainda mais quando lideram as inúmeras denominações que a cada dia surgem no cenário religioso do país. O que acontece, muitas vezes, é o contrário: tudo o que aparece como realmente diverso do comumente estabelecido é visto como afronta e perigoso, e logo é censurado e negado. Se o uniforme fosse desígnio de Deus, seu próprio Espírito não teria falado de modo a fazer-se compreender por cada um, em sua própria língua, tal como nos é narrado a respeito do Pentecostes (cf. At 2,6), no início da caminhada cristã.

Felipe Magalhães Francisco é doutorando em Ciências da Religião, pela PUC-MG, e mestre e bacharel em Teologia, pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia. Coordena a Comissão Arquidiocesana de Publicações, da Arquidiocese de Belo Horizonte. Articula a Editoria de Religião deste portal. É autor do livro de poemas Imprevisto (Penalux, 2015). Escreve ás segundas-feiras. E-mail: felipe.mfrancisco.teologia@gmail.com.
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Pe. Geovane Saraiva

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