"Quem me dera ser leal, discreto e silencioso como minha sombra" (Dom Helder Câmara).

sexta-feira, 28 de abril de 2017

Conflito no feriado

 domtotal.com
Há um desrespeito geral à solta pelo ar.
Tudo isso num dia reservado ao desejo sagrado de Liberdade.
Tudo isso num dia reservado ao desejo sagrado de Liberdade. (Reprodução)
Por Fernando Fabbrini*

Belo Horizonte, 21 de abril. Saio bem cedo para o passeio matinal canino e assusta-me o buzinaço na avenida de meu trajeto costumeiro. De longe, avisto gente correndo, carros de polícia, apitos. Opa! O que será? Uma manifestação espontânea em favor dos ideais do alferes e seus amigos?

Não, nada disso. Trata-se de uma corrida ao longo da Contorno, organizada por alguma entidade esportiva, aproveitando o feriado. Como se sabe, a avenida tem cruzamentos diversos, intersecções com ruas e outras avenidas importantes - uma delas é esta por onde passo. Para muitos, nesses tempos bicudos, o feriado não existe, é dia normal de trabalho, por necessidade. As emergências médicas também não escolhem dia – e há ambulâncias de sirenes ligadas, levando ou buscando pacientes.

Esportistas animados, gente preocupada e apressada acabaram por se encontrar nesta bela manhã no meu cruzamento. Não poderia dar certo. Apenas duas jovens policiais, com jeito e expressão de principiantes no ofício, tentam – visivelmente desorientadas – estabelecer a ordem e a paz entre os grupos antagônicos. A fila do congestionamento causado pela corrida já se estendeu a vários quarteirões. Muitos motoristas puxaram o freio de mão, saíram dos carros e caminham até o foco do engarrafamento para entenderem o motivo. Voltam indignados:

- Que bagunça!

- Mas não é possível uma coisa dessas!

Estão parados há quase meia hora, me reporta umas das vítimas. Além das ambulâncias já citadas, um carro com uma idosa doente, pisca-alerta ligado, tenta chegar ao Pronto Socorro. Alguns motoristas se solidarizam e buscam abrir caminho, mas é impossível. Nem por cima dos canteiros ou calçadas será possível encontrar uma via aberta.  

O clima ficou pesado. As duas policiais novatas chamam reforços pelo rádio e eles chegam rapidamente. São policiais homens, tropa de choque ou coisa assim; descem das motos de cassetetes nas mãos e apitando furiosamente. Os atletas xingam, fazem gestos, trocam ofensas com os motoristas inconformados, buzinando sem parar.

Escapo da confusão e subo a Contorno mais um quarteirão. Ali, os organizadores distribuem copinhos de água. Os corredores bebem, amassam os frascos e.... jogam tudo no chão! Não acredito. O canteiro central e o meio fio vão se enchendo de copinhos vazios, um rastro do descaso. Ninguém pensou num saco de lixo logo à frente?

Um evento que mexe com uma boa parte da cidade e mobiliza centenas de pessoas precisava contar com um planejamento melhor. Se deixarem por conta de nosso comprovado baixo nível de civilidade, somado ao estado de impaciência no qual a população está mergulhada, não vai dar certo.

E deu no que deu: atletas não respeitam as emergências, o direito de ir e vir, a limpeza da rua. Motoristas estão se lixando pelo direito dos corredores matinais. Resumindo: há um desrespeito geral à solta pelo ar. E nenhum amor pelo chão que se pisa ou sobre o qual se corre. Tudo isso num dia reservado ao desejo sagrado de Liberdade.

Fernando Fabbrini é roteirista, cronista e escritor, com quatro livros publicados. Participa de coletâneas literárias no Brasil e na Itália e publica suas crônicas também às quintas-feiras no jornal O TEMPO.
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Pe. Geovane Saraiva

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