"Quem me dera ser leal, discreto e silencioso como minha sombra" (Dom Helder Câmara).

sexta-feira, 17 de março de 2017

Índia: Alegria e medo do povo de Odisha

 domtotal.com
Violência contra os cristãos é impulsionada pela ideologia fundamentalista do partido nacionalista hindu.
Católicos perderam terras e pertences e tiveram de viver na floresta ou em campos para refugiados.
Católicos perderam terras e pertences e tiveram de viver na floresta ou em campos para refugiados. (Ajuda à Igreja que Sofre)

A coordenadora de projetos para a Ásia da ACN – Fundação Pontifícia Ajuda à Igreja que Sofre, Veronique Vogel, viajou1 à Índia de outubro a novembro de 2016. Ela visitou a Igreja Católica em Odisha. A entrevista foi conduzida por Maria Lozano.

Odisha sempre foi um lugar onde as pessoas conviviam pacificamente apesar das diferenças religiosas e extratos sociais – hindus, cristãos, grupos indígenas, dalits – até 2008, quando de repente, surgiu uma onda de violência contra os cristãos. Como está a situação agora em Odisha?

Depois de alguns anos, a situação melhorou, pois cessou a violência. A maioria das pessoas retornou às suas aldeias ou, se isso não foi possível, se realocou em algum lugar próximo. A situação, portanto, melhorou bastante. Todavia, ainda há medo; se percebe que o medo está no coração dos cristãos lá – católicos e protestantes – porque se deram conta de que a violência pode ressurgir a qualquer momento. Além disso, viram que as pessoas que instigaram a violência contra eles eram de fora da região, impulsionadas pela ideologia fundamentalista do partido nacionalista hindu, o BJP. Por isso sabem que, enquanto o BJP estiver no poder, os ataques podem voltar a acontecer. Por isso, apesar da situação estar bem melhor, as pessoas continuam preocupadas.

Que tipo de tensão o BJP criou?

Membros do BJP instigaram as pessoas a agirem com violência em dois níveis. Por um lado, tentaram agitar as tribos para que estas enfrentassem a comunidade dalit, causando, assim, problemas em comunidades que viviam pacificamente. Os membros das tribos são em geral proprietários de terras, enquanto que a maioria dos dalits não. Entretanto, estes também querem progredir e possuir suas próprias terras. Desse modo, os membros do BJP provocavam às tribos, inclusive os membros cristãos: “Vejam os dalits, agora querem os mesmos direitos que vocês. Querem ter suas próprias terras”. E assim, começaram a semear a desconfiança. Por outro lado, existe uma hostilização por motivos religiosos: os hindus fundamentalistas querem predispor aos habitantes hindus das aldeias contra os seus vizinhos cristãos.

Desde há bastante tempo, a ACN tem auxiliado à Igreja em Odisha, na Índia. Tendo em vista este longo relacionamento de apoio, qual foi o momento mais emocionante para você nesta viagem?

Para mim, o momento mais emocionante foi a nossa acolhida pelas pessoas de aldeias onde já tínhamos financiado construção de capelas. Elas nos esperaram fora das aldeias e nos acompanharam com danças e cantos por todo o caminho até as capelas financiadas por nossos benfeitores. Gostei muito das capelas: estavam bem construídas e acabadas, e pintadas com lindas cores; lugares dignos onde os fiéis podem realizar as celebrações litúrgicas. Estavam bem alegres por poder nos agradecer, também por não termos esquecido deles e por termos nos disposto em ir visitá-los.

Outra experiência muito emocionante foi sentir a alegria do povo quando nos dava as boas-vindas e ver que de repente o clima mudava completamente quando nos sentávamos e começávamos a conversar sobre o que havia ocorrido no passado. Presenciei alegria por cinco minutos e logo depois as mesmas pessoas me contavam histórias terríveis como a seguinte: “Nossos vizinhos entraram em nossa casa para nos matar, saímos correndo e eles ficaram com tudo o que nos pertenciam e depois destruíram nossas casas”. Também nos contaram que houve muitos feridos e, ainda, assassinatos cruéis. Foi muito importante comprovar que, apesar disso tudo, eles permanecem firmes na fé. Nos diziam: “Nunca pensamos em abandonar a Jesus. Queremos continuar sendo católicos e temos orgulho disso”.

Isto me emocionou: eles continuam felizes, são capazes de nos agradecer e de conservar uma fé firme, enquanto, por outro lado, permanecem profundamente feridos em seus corações e em suas mentes por tudo o que suportaram.

Na sua opinião, quais são os maiores desafios para a Igreja em Odisha?

Creio que um dos maiores desafios agora é o diálogo inter-religioso. A Igreja tem mantido diálogo com os hindus, até mesmo com os mais radicais, para que as pessoas entendam que a Igreja Católica tem procurado fazer o melhor para todos, e que crê que não é bom colocar um grupo acima de outro. A Igreja Católica nunca vai dizer que o hinduísmo não é uma boa religião, mas que deseja que vivam juntos em harmonia. A Igreja acredita que esse mosaico de religiões em Odisha – hindus, cristãos, e alguns muçulmanos – pode ser favorável à harmonia e à paz. Os hindus fundamentalistas tentam impor a ideia bem perigosa de que um verdadeiro indiano deve ser hindu. Através do diálogo inter-religioso, a Igreja tenta deixar claro para as pessoas que todas elas pertencem a uma única nação, um país e que podem viver juntos em harmonia.

O impacto positivo desse diálogo entre o governo hindu e a Igreja Católica é que aumentará as compensações pelas perdas dos cristãos que sofreram perseguição em 2008. Há também desafios internos da Igreja?

Sim, um desafio interno para a Igreja Católica, em algumas partes da Índia, é aceitar melhor as pessoas vindas de contextos diferentes, especialmente com relação ao sistema de castas. A Igreja tem que tratar essas divisões inclusive dentro dela mesma.

Outro desafio para a Igreja é a constante formação tanto para o clero quanto para os leigos, por conta de duas razões: primeiro, a fé ainda é bem jovem em alguns lugares; segundo, até mesmo quando a fé está enraizada, o conhecimento precisa ser aprofundado. É por isso que tanto o clero como os leigos precisam ser bem formados. Às vezes, não são pessoas do clero que se deparam com conflitos, mas leigos que, com boa formação, podem reagir melhor e mais rápido numa aldeia onde se difunde informações falsas sobre os cristãos. Podem responder da maneira correta: “Não, não é assim”. Essa também é uma forma de manter a paz. Por essa razão, a ACN contribui para a formação de leigos, assim como de padres e religiosas, que precisam de uma melhor qualificação em teologia, filosofia e missiologia.


1 - Durante essa viagem, a ACN pôde identificar as necessidades e prioridades da Igreja Católica no distrito de Odisha (Dioceses de Balasore, Berhampur, Cuttack – Bhubaneswar, Rourkela e Sambalpur). A Fundação Pontifícia recebeu solicitações de ajuda para 29 novos projetos nessa região prioritária pela forte discriminação aos cristãos. O foco principal está na formação para leigos – dalits e jovens líderes de tribos por exemplo – além dos seminaristas. A ACN também apoia a construção de pequenas capelas nas aldeias e a construção de um convento. A ACN ainda financiará meios de transportes para a Igreja Católica local: duas bicicletas, uma moto e um carro, mais precisamente.


Ajuda à Igreja que Sofre
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Pe. Geovane Saraiva

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