"Quem me dera ser leal, discreto e silencioso como minha sombra" (Dom Helder Câmara).

domingo, 12 de março de 2017

Dia 8

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Dia de viver mais um dia, mulheres, sem medo de sina ou barreira de sinalização.
Dia de erguer o corpo, o rosto, os olhos, mirando a mira dos que miram torto.
Dia de erguer o corpo, o rosto, os olhos, mirando a mira
 dos que miram torto. (Divulgação)
Por Eleonora Santa Rosa*

Não há como descolar da celebração o sentimento de melancolia pela situação que afeta, independentemente do dia, a vida vivida no calendário anual de ataques de todos os dias.

Dia de meditação e proteção redobrada contra a discriminação, a misoginia e todas as formas de opressão sofridas no dia a dia.

Dia de reforçar a dose de vacina e imunização contra os vírus propagadores do desprezo, da desconsideração, da ignorância no trato e de tato, da perseguição.

Dia de secar as lágrimas pela dureza da avareza de tantos, da falta de afeto e da ausência de recato de outros tantos.

Dia de aprender novas formas de sobreviver à saraivada de preconceitos e recriminações pelo que se é, sente e ressente.

Dia de louvar a inabalável crença no ser parido de si, que muitas vezes teima em repetir a ciranda opressiva aprendida pela herança paterna primitiva.

Dia de esticar o fio do duro ofício de fêmea que pensa, dispensa, discorda e acorda em outra sintonia.

Dia de resistir, estoica e heroicamente, às tortuosas agruras das torturas psíquico-sentimentais no dia a dia.

Dia de manter a auto-estima em alta no batente corrente da baixa estima do meio, que expropria criação e ceifa opinião a duros golpes da foice da persecução.

Dia de erguer o corpo, o rosto, os olhos, mirando a mira dos que miram torto, dos que praticam o gozo do poder suposto, do suprimir o sopro de vida a ser vivida em outro topo.

Dia de renovar a coragem de denunciar o assédio hediondo de qualquer infante que detém poder e desdém.

Dia de recusar o papel passado e conquistar a alforria diária do grilhão da escravatura mercenária.

Dia de aprender que amor com amor se paga e que não se apaga a virulência e a vilania de qualquer agressão.

Dia de não temer os temerários de plantão, de bastão em riste, ou a mão que bate e rebate os direitos conquistados sem sedução.

Dia de rezar a prece pela libertação do corpo, coração, cabeça no exercício sem trégua dos direitos de cidadão.

Dia de evocar Clarice e seu texto de paixão:

“Gosto das bebidas mais fortes, dos amores mais loucos, dos pensamentos mais complexos e dos sentimentos mais intensos. Tenho um apetite voraz e os delírios mais doidos... Eu não pretendo passar pela vida na ponta dos pés, sem fazer barulho...”

Dia de viver mais um dia, mulheres, sem medo de sina ou barreira de sinalização.

*Eleonora Santa Rosa – jornalista, gestora cultural, produtora e ex-secretária de Estado da Cultura de Minas Gerais.
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Pe. Geovane Saraiva

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