"Quem me dera ser leal, discreto e silencioso como minha sombra" (Dom Helder Câmara).

sexta-feira, 10 de março de 2017

A NOVA ONDA DE MINERAÇÃO E DESTRUIÇÃO NOS PAÍSES SUBDESENVOLVIDOS

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A mineração é hoje uma das grandes chagas dos países em desenvolvimento.
Por Elaine Tavares*

Tem sido sempre assim no sistema capitalista de produção. Se algum empresário quer realizar uma grande obra ou a exploração de recursos naturais, segue a mesma rotina. Primeiro, rouba as terras das pessoas que vivem na área, geralmente com a conivência do estado. Depois, os que conseguem ficar nas adjacências, lutando por seus direitos, são sistematicamente perseguidos, violentados ou assassinados.

No Brasil, isso é batata. Foi assim na era das construções das grandes ferrovias, quando o capital inglês tomou a vida dos brasileiros. Quem, em Santa Catarina, não se lembra do que foi a Guerra do Contestado? Justamente isso. As famílias, desalojadas pela companhia de estrada de ferro, ao decidirem lutar para ficar na área, foram atacadas pelo exército e dizimadas. É que para os empresários, pouco importa a dor das pessoas. Eles estão ligados nos números, nas cifras dos lucros, na produtividade do capital. Se para ganhar dinheiro tiver de dizimar uma cidade inteira, não há problemas. Cumpra-se. As pessoas são como magotes de formigas, desaparecidas sem compaixão.

Outro exemplo são os trabalhadores rurais nos campos do país. Impedidos de terem suas próprias terras, por conta do custo alto, eles vivem de um lado para outro, desgarrados, buscando algum trabalho. E quando se organizam para reivindicar o direito de ter uma terra para plantar, são assassinados, presos, desaparecidos.

Os povos originários vivem igual destino. Desterrados de seus territórios tradicionais de maneira violenta durante a invasão europeia, até hoje não conseguiram garantir seus espaços de vida. Travam uma batalha sistemática contra os fazendeiros, mineradores e grandes empresários, todos muito bem assessorados pelas forças estatais. Se tiverem o azar de estarem em terras ricas em minério ou água, então, a coisa complica ainda mais.
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No nordeste e norte brasileiro a empresa Vale, que já foi uma grande empresa nacional e agora é uma multinacional, tem cumprido esse vergonhoso papel de ser destruidora de gente e vida. Não há limites para sua ação predadora. Em Marabá, por exemplo, no estado do Pará, a sua estrada de ferro tem causado muitos conflitos com os moradores. Além disso, por conta da exploração mineral, tem desmatado e poluído o ambiente a tal ponto que até o Ministério Público já denunciou. Usando a mesma velha tática coronelista, a empresa mantém seguranças que mais parecem jagunços e que não hesitam em usar a violência quando surge qualquer conflito com a população. No ano passado, por conta de protestos das gentes contra a Vale, um professor da Universidade local foi criminalizado judicialmente como o “mandante” de uma atividade de trancamento da estrada.

Na última semana dois trabalhadores rurais foram brutalmente agredidos por seguranças da Vale quando consertavam uma cerca que separa as terras da área da estrada de ferro. Como ali as lutas estão à flor da pele, qualquer presença próxima à estrada é tratada como “crime”. E o que os trabalhadores queriam era apenas impedir que o gado adentrasse a área dos trilhos. Na delegacia, onde foram prestar queixa, os agricultores mostraram o rosto explícito da violência. Espancados e lacerados, eles não conseguiram arrumar a cerca e o resultado foi que no dia seguinte vários animais foram atropelados pelo trem da Vale.

Os agricultores perderam os animais e os agressores apenas assinaram um termo circunstanciado de ocorrência por lesão corporal. E seguem lá, prontos para espancar qualquer outra pessoa que ouse se aproximar da propriedade da empresa.

O agricultor Jorge Santos, um dos agredidos, é velho conhecido da Vale. Ele faz parte de um grupo de proprietários e posseiros que já viviam naquelas terras antes de a Vale chegar. Existem processos e litígios que já duram anos. A Vale se instalou na região de Canaã dos Carajás propagandeando que ali estaria instalado o maior projeto de mineração da história, a mina S11D, de minério de ferro. E, para garantir o sucesso da empreitada, não se furtou a expulsar as famílias que ali viviam. Os conflitos entre a empresa e os agricultores, bem como trabalhadores rurais sem-terra são constantes. A Vale insiste em “limpar” a área do entorno de suas cercas e não hesita em usar todas as táticas de intimidação, humilhação e violência. E, como ninguém tem sangue de barata, também tem resposta. O conflito é sistemático.

A empresa insiste que não cometeu nenhuma irregularidade na aquisição da área, comprando as terras de forma legal. Mas, há controvérsias. Os pequenos agricultores que vivem na região denunciam que aquelas eram terras da União, logo não podem ser compradas. Também dizem que muitas famílias foram obrigadas a sair pela força, com indenização baixa ou nenhuma.

A luta contra a Vale não é de hoje, mas aos agricultores é sempre bem mais difícil enfrentar a gigante da mineração que conta, inclusive, com o beneplácito do estado. O resultado é o clima de permanente tensão, pois os moradores não se conformam em viver como se fossem lazarentos contagiosos. Eles querem que a Vale respeite suas propriedades, que cumpra com suas obrigações e que deixe de destruir o meio ambiente. Porque, a continuar como está, em breve, todos terão de sair da área em função da degradação das matas e da água. De certa forma, é isso mesmo que a Vale quer. Tomar toda a região para transformá-la num grande buraco. As famílias que se danem. Que busquem outro lugar.

A Vale é a cara explicita do capitalismo. Em nome do lucro de alguns não se detém diante de nada, nem mesmo da vida.

A mineração é hoje uma das grandes chagas dos países em desenvolvimento. Exploração de petróleo, gás e minérios tem sido o recurso para garantir o chamado “progresso” de regiões que não contam com industrialização. Minas a céu aberto, a volta de métodos arcaicos e extremamente poluidores como a lixiviação – que é a extração de minérios com água e cianureto – barragens com dejetos tóxicos (como foi a da Samarco), tudo isso vem mobilizando comunidades em países como a Argentina, Brasil, Chile, Nicarágua, Equador, El Salvador, Costa Rica, Paraguai, Uruguai.

Conforme levantamento feito pelo pesquisador Juan Luis Berterretche, até agosto de 2016 foram registrados 225 conflitos em 225 projetos mineiros. Mais de 300 comunidades ao longo da América Latina tem sido afetadas pelas mineradoras, com desalojo, expulsão, mortes e degradação do ambiente.

Não bastasse isso agora também aparece com bastante uso o chamado “fraking”, que é a criação de pequenos terremotos, com jatos fortíssimo de água, para perfuração de rochas em busca de gás e minerais. Esse processo causa uma gigantesca destruição no entorno, afetando a superfície explorada, contaminando o ar, as águas superficiais e profundas, destruindo o solo para possível uso no futuro, impactando a flora e a fauna de toda a região, além de destruir a vida das comunidades que sem água e com o ambiente todo detonado precisam migrar.

Em Santa Catarina, recentemente, descobriu-se uma empresa estadunidense fazendo prospecções do minério xisto, já usando essa técnica do fraking, alertando as comunidades e as autoridades que verdadeiramente se importam com a vida e o destino do estado. Mas, nada garante que, caso descoberto o minério, não seja permitida a exploração, causando mais um ciclo de destruição na região oeste do estado.

As comunidades precisam ficar atentas e conhecer profundamente as consequências desses processos de exploração de petróleo, gás e minério. O que pode parecer, à primeira vista, uma boa vantagem financeira para a cidade ou mesmo para os pequenos proprietários de terra, no longo prazo serão apenas morte e destruição.

Sempre é bom recordar. Essas grandes empresas não se importam com a vida das pessoas nem do planeta e tudo o que tiver que ser feito para garantir o lucro será feito.
Há que vigiar e cuidar, lutando sempre para que essas empresas não se instalem. Há outras formas de desenvolver. Há outras concepções do que pode ser o “progresso”. É preciso conhecer.

Fundamentalmente é necessário que as gentes saibam que os países centrais, os quais são sede das empresas transnacionais, só podem seguir ricos se explorarem até a última gota de sangue dos países periféricos. Não há “desenvolvimento” possível na periferia dentro do sistema capitalista, pois é da natureza do capitalismo que para existir o centro, tenha de existir a periferia. E essa sempre será sugada.

No máximo sustentará uma pequena elite nacional. Mas não há chances de promover a distribuição da riqueza entre a maioria.

Assim que não há alternativa para as gentes que não a luta. Contra as mineradoras, contra a destruição do ambiente, contra o capitalismo.

*Elaine Tavares é jornalista.
http://www.revistamissoes.org.br/
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Pe. Geovane Saraiva

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